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segunda-feira, 24 de junho de 2013

O JESUS ANTES E DEPOIS DE CRISTO

Fatos Divergentes

                                                    Vamos pensar um pouco?


Como tudo o mais que se refere à existência de Jesus na terra, também a sua ascendência é objeto de controvérsias. Segundo Mateus e Lucas, Jesus descende ao mesmo tempo de David e do Espírito Santo. Entretanto, como filho do Espírito Santo, não poderá descender de José, conseqüentemente deixa de ser descendente de David e o Messias esperado pelos judeus. Assim, Jesus ficará sendo apenas Filho de Deus, ou Deus, visto ser uma das três pessoas da trindade divina.

Em ambos os evangelhos acima citados há referências quanto a data de nascimento de Jesus, mas tais referências são contraditórias — o Jesus descrito por Mateus teria onze anos quando nasceu o de Lucas. Mateus diz que José e Maria fugiram apressadamente de Belém, sem passar por Jerusalém, indo direto para o Egito, após a adoração dos Reis Magos. Herodes iria mandar matar as criancinhas. Todavia, Lucas diz que o casal estivera em Jerusalém e acrescenta a narração da cena de que participaram Ana e Simeão. De modo que um evangelista desmente o outro.

Lucas não alude à matança das criancinhas, nem à fuga para o Egito. Por outro lado, Marcos e João não se reportam à infância de Jesus, passando a narrar os acontecimentos de sua vida a partir do seu batismo por João Batista. Mateus que conta o regresso de Jesus, vindo do Egito e indo para Nazaré, o deixa no esquecimento, voltando a ocupar-se dele somente depois dos seus trinta anos, quando ele procura João Batista. Diz ainda que João já o conhecia e, por isto, não o queria batizar, por ser um espírito superior ao seu.

Lucas narra a discussão de Jesus com os doutores da lei, aos doze anos de idade. Sendo perguntado pela mãe sobre o que estava ali fazendo, teria respondido que se ocupava com os assuntos do pai.

Emilio Bossi, referindo-se a esta passagem, estranha a atividade da mãe. Se o filho nascera milagrosamente, e ela não o ignora, só poderia esperar dele uma seqüência de atos milagrosos. Mesmo a sua presença no templo, entre os doutores, não deveria causar preocupação à sua mãe, visto saber ela que o filho não era uma criança qualquer, e sim um Deus. Lucas diz que os samaritanos não deram boa acolhida a Jesus, o que muito irritara a João. Contudo, João, o Evangelista, diz que os samaritanos deram-lhe ótima acolhida e, inclusive, chamaram-no de salvador do mundo.

Os evangelistas divergem também quanto ao relato da instituição da eucaristia. Três deles afirmam que Jesus a instituiu no dia da Páscoa, enquanto João afirma que foi antes. Enquanto os três descrevem como aconteceu, João silencia. Na última noite Jesus estava muito triste, como, aliás, permaneceria até a morte. Pondo o rosto em terra, orou durante muito tempo. Segundo os evangelistas, ele estava de tal modo triste e conturbado que teria suado sangue, coisa, aliás, muito estranha, nunca verificada cientificamente.

Enquanto isto, seus companheiros dormiam despreocupadamente, não se incomodando com os sofrimentos do Mestre. Entretanto João não fala sobre esse estado de alma do Mestre. Pelo contrário, diz que Jesus passara a noite conversando, quando se mostrava entusiasta de sua causa e completamente tranqüilo.

Lucas, Mateus e Marcos afirmam que o beijo de Judas o denunciara aos que vieram prendê-lo. Todavia, João diz que foi o próprio Jesus quem se dirigiu aos soldados dizendo-lhes tranquilamente  “Sou eu”. Lucas é o único que fala no episódio da ida de Jesus de Pilatos para Herodes Antipas. Os outros caem em contradição quanto à hora do julgamento pelo Conselho dos Sacerdotes em presença do povo. João não fala a respeito do depoimento de Cireneu, nem na beberagem que teriam dado a Jesus.

Omite-se ainda quanto à discussão dos dois ladrões, crucificados com Jesus, e quanto à inscrição posta sobre a cruz. De forma que seu relato é bastante diferente daquilo que os outros contaram.

E as divergências continuam ainda no que concerne ao quebramento das pernas, ao embalsamamento, à natureza do sepulcro e ao tempo exato em que ele esteve enterrado. Quanto ao embalsamamento, por exemplo, há muita coisa que não foi dita. Teriam retirado seu cérebro e intestinos como se procede normalmente nesses casos? Se a resposta for positiva, como explicar o fato de Jesus, após a ressurreição, pedir comida? Como se vê, as verdades bíblicas são além de controvertidas, incompreensíveis.

Lucas diz que Jesus referiu-se aos que sofrem de fome e sede, enquanto Mateus diz que ele se referia aos que têm fome e sede de justiça, aos pobres de espírito. Uns afirmam que Jesus tratara os publicanos com desprezo e ódio, outros dizem que ele se mostrou amigável em relação a eles. Para uns, Jesus teria dito que publicassem as boas obras, para outros, que nada dissessem a respeito.

Uma hora Jesus aconselha o uso da força física e da resistência, mandando até que comprassem espada; noutra, ameaça os que pretendem usar a força. Marcos, Mateus e Lucas dizem que Jesus recomendara o sacrifício. Entretanto, não tomou parte em nenhum deles. Mateus diz que Jesus afirmou não ter vindo para abolir a lei nem os profetas, enquanto Lucas diz que ele afirmara que isso já estava no passado, já tivera o seu tempo. Os três afirmam ainda que Jesus apenas pregara na Galileia  tendo ido raramente a Jerusalém, onde era praticamente desconhecido. Todavia, João diz que ele ia constantemente a Jerusalém, onde realizara os principais atos de sua vida.

As coisas ficam de modo que não se sabe quem disse a verdade, ou, melhor dizendo, não sabemos quem mais mentiu. Ora, se Jesus tivesse realmente praticado os principais atos de sua vida em Jerusalém, seria conhecido suficientemente e, então, não teriam que pagar a Judas 30 dinheiros para entregar o Mestre. João, que teria sido o precursor do Messias, não se fez cristão, não seguiu a Jesus, pregando apenas o judaísmo no aspecto próprio. Entretanto, depois de preso, enviou um mensageiro a Jesus, indagando-lhe: “És tu que hás de vir, ou teremos de esperar um outro?”, ao que Jesus teria respondido: “Você é o profeta Elias”. Talvez houvesse esquecido que o próprio João antes já declarara isso mesmo.

Contam os Evangelhos que, desde a hora sexta até Jesus exalar o último suspiro, a terra cobriu-se de trevas. Contudo, nenhum escritor da época comenta tal acontecimento. Marcos 25:25 diz que Jesus foi sacrificado às 9 horas. João diz que ao meio dia ele ainda não havia sido condenado à morte, e acrescenta que, a esta hora, Pilatos o teria apresentado ao povo exclamando: “Eis aqui o vosso rei”!

Emilio Bossi assinala detalhadamente todas estas contradições, e as que se deram após a pretensa ressurreição, dizendo que nada do que vem nos Evangelhos deve ser levado a sério. O sobrenatural é o clima em que se encontra a Bíblia, e esta é apenas o resultado da combinação de crenças e superstições religiosas dos judeus com as de outros povos com os quais conviveram.

Mateus e Marcos afirmam enfaticamente que os discípulos de Jesus abandonaram tudo para seguí-lo, sem sequer perguntar antes quem ele era. Em Mateus, lê-se que Jesus teria afirmado que não viera para abolir as leis de Moisés. Contudo, esta seria uma afirmativa sem sentido algum, visto que hoje sabemos que os livros atribuídos a Moisés são apócrifos.

Segundo João, quando Jesus falou ao povo, foi por este acatado e proclamado rei de Israel aos gritos de “Hosanna”. Mas, um pouco adiante, ele se contradiz, afirmando que o povo não acreditou em Jesus, e praguejando contra ele, o ameaçava a ponto de ele ter procurado se esconder.

Mateus diz que Jesus entrou em Jerusalém vitoriosamente quando a multidão o teria recebido de modo festivo, e marchando com ele, cobria o chão com folhas, flores e com os próprios mantos, gritando: “Hosanna ao Filho de David! Bendito seja o que vem em nome do Senhor!” Aos que perguntavam quem era, respondiam “Este é Jesus, o profeta de Nazaré da Galileia . No entanto, outros evangelistas afirmam que ele era um desconhecido em Jerusalém.

Disseram que Pilatos estava convencido da inocência de Jesus, razão pela qual teria tentado salvá-lo, o abandonando logo em seguida, indefeso e moralmente arrasado.

João faz supor que Pilatos teria deixado que matassem Jesus, temendo que denunciassem sua parcialidade ao imperador. Se ele não castigasse a um insurreto que se intitulava rei dos judeus, estaria traindo a César. No entanto, tal atitude por parte de Pilatos não combina com o seu retrato moral, pintado por Filon. Era um homem duro e tão desumano quanto Tibério.

A vida de mais um ou menos um judeu, para ambos, era coisa da pouca importância. Filon faz de Pilatos um carrasco e mostra que ele, em Jerusalém, agia com carta branca. Além disso, as reações de Pilatos com Tibério eram quase fraternais e ele era um delegado de absoluta confiança do imperador. Mas como os Evangelhos foram compostos dentro dos muros de Roma, teriam de ser de modo a não desagradar às autoridades Imperiais. Pilatos foi posto nisso apenas porque os bens e a vida dos judeus estavam sob sua custódia. Entretanto, como a ocupação romana foi feita em defesa dos judeus ricos, contra os judeus pobres e os renegados do deserto, as autoridades romanas temiam muito mais ao povo do que a Roma.

Além disso, muitas eram as razões para não gostarem de Pilatos nem de Herodes Antipas. Eles eram antipáticos aos judeus pobres, por isso teriam temido a ira popular. Esta é a razão apresentada pelos historiadores que levam a sério os Evangelhos, justificando assim o perdão do criminoso Bar Abbas e a condenação do inocente Jesus. Entretanto, se as legiões romanas realmente ali estivessem naquela época, nem Pilatos nem Herodes tomariam em consideração a opinião do povo, porque se sentiriam garantidos nos seus postos.

Além disso, a opinião popular é fator ainda bem novo na técnica de formação dos governos. Tudo o que sabemos é o que está nos Evangelhos. Jesus era um homem do povo e um dos que temiam o governo.

Por isso é que em Marcos 16:7 encontraremos Jesus aconselhando os discípulos a fugirem. Em Lucas 10:4 Jesus está aconselhando aos discípulos a não falarem com ninguém em suas viagens. Em Mateus 35:23 encontraremos Jesus reprovando os judeus que haviam assassinado Zacarias, filho de Baraquias, entre o adro do templo e o altar. A história, no entanto, afirma ser esse episódio imaginário.

Flávio Josefo relata um acontecimento semelhante, registrado no ano 67, 34 anos após a pretensa morte de Jesus, referindo-se no caso a um homem chamado Baruch. Isto evidencia o descuido dos compiladores dos Evangelhos, que os compuseram sem levar em conta que, no futuro, as contradições neles encontradas seriam a prova da inautenticidade dos fatos relatados. Nicodemos, que teria sido um fariseu rico, membro de Senedrin, homem de costumes moderados e de boa fé, não se fez cristão, apesar de ter agido em defesa de Jesus contra os próprios judeus. Por certo ele, como João Batista, não se convenceram da pretensa divindade de Jesus Cristo, nem mesmo se entusiasmaram com suas pregações.

Outra ficção evangélica é debitada a Paulo, o qual inventou um Apolo, que não figura entre os apóstolos e em nenhum outro relato. Em Atos dos Apóstolos 18, lê-se: “Veio de Éfeso um judeu de nome Apolo, de Alexandria, homem eloqüente e muito instruido nas Escrituras. Este era instruído no caminho do Senhor, falando com fervor de espírito, ensinando com diligência o que era de Jesus, e somente conhecia João Batista. Com grande veemência convencia publicamente os judeus, mostrando-lhes pelas Escrituras que Jesus era o Cristo”. Seria um judeu fiel ao judaísmo que, segundo Paulo, procurava levar seus próprios patrícios para o Cristo? Na epístola I aos Coríntios, diz que: “Apolo era igual a Jesus”.

Paulo, já no fim do seu apostolado, afirma que o imperador Agripa era um fariseu convicto, e que sua religião era a melhor que então existia. Era, assim, um divulgador do cristianismo afirmando a excelência do farisaísmo. Falando de Jesus, Paulo descreve apenas um personagem teológico e não histórico. Não se refere ao pai nem à mãe de Jesus, sendo um ser fantástico, uma encarnação da divindade que viera cumprir um sacrifício expiatório, mas não fala do modo como teria sido possível a encarnação. Não diz sequer a data em que Jesus teria nascido. Não relata como nem quando foi crucificado. No entanto, estes dados têm muita importância para definir Jesus como homem ou como um ser sobrenatural. Está patente, desse modo, que Paulo é uma figura tão mitológica quanto o próprio Jesus.

Em Atos dos Apóstolos 28:15 e 45 Paulo diz que quando chegou a Pozzuoli, ele e os seus companheiros foram ali bem recebidos, havendo muita gente à beira da estrada os esperando. Entretanto, chegando a Roma, teve de defender-se das acusações de haver ofendido em Jerusalém ao povo e aos ritos romanos. Na Epístola aos Romanos 1:8, Paulo diz que a fé dos cristãos de Roma alcançara todo o mundo, razão pela qual encerraria sua missão tão logo regressasse da Espanha, onde saudaria um grande número de fiéis.

Mas, se fosse assim, por que Paulo teve de se defender perante os cristãos de Roma contra o seu próprio judaísmo? Com pouco tempo Paulo já pensava encerrar sua missão porque o cristianismo já havia se universalizado. Entretanto, ele continuava considerando como melhor religião o farisaísmo. O cristianismo a que Paulo se referia deveria ser anterior a Jesus Cristo, que era o seguido pelos cristãos de Roma, e não pelos cristãos dos lugares por onde Paulo havia passado pregando. Eusébio disse que o cristianismo de Paulo era o terapeuta do Egito, e Tácito disse que os hebreus e os egípcios formavam uma só superstição.

O passado religioso do homem está repleto de deuses solares e redentores. Na Índia, temos Vishnu, um deus que se reencarnou nove vezes para sofrer pelos pecados dos homens. No oitavo avatar foi Krishna e, no nono, Buda.

Krishna foi igualmente um deus redentor, nascido de uma virgem pura e bela, chamada Devanaguy. Sua vinda messiânica foi predita com muita antecedência, conforme se vê no Atharva, no Vedangas e no Vedanta. O deus Vishnu teria aparecido a Lacmy, mãe da virgem Devanaguy, informando que a filha iria ter um filho-deus e qual o nome que deveria lhe dar. Mandou que não deixasse a filha se casar, para que se cumprissem os desígnios de deus. Isso teria acontecido 3.500 anos A.E.C. no Palácio de Madura. O filho de Devanaguy destronaria seu tio.

Para evitar que acontecesse o que estava anunciado, Devanaguy teria sido encerrada em uma torre, com guardas na porta. Mas, apesar de tudo, a profecia de Poulastrya se cumpriu, “O espírito divino de Vishnu atravessou o muro e se uniu à sua amada”. Certa noite ouviu-se uma música celestial e uma luz iluminou a prisão, quando Vishnu apareceu em toda a sua majestade e esplendor. O espírito e a luz de deus ofuscaram a virgem, encarnando-se. E ela concebeu. Uma forte ventania rompeu a muralha da prisão quando Krishna nasceu.

A virgem foi arrebatada para Nanda, onde Krishna foi criado, lugar este ignorado do rajá. Os pastores teriam recebido um aviso celeste do nascimento de Krishna, e então teriam ido adorá-lo, levando-lhe presentes. Então o rajá mandou matar todas as criancinhas recém-nascidas, mas Krishna conseguiu escapar.

Aos 16 anos Krishna abandonou a família e saiu pela Índia pregando sua doutrina, ressuscitando os mortos e curando os doentes. Todo o mundo corria para vê-lo e ouvi-lo. E todos diziam: “Este é o redentor prometido a nossos pais”. Cercou-se de discípulos, aos quais falava por meio de parábolas, para que assim só eles pudessem continuar pregando suas idéias.

Certo dia os soldados quiseram matar Krishna, quando seus discípulos amedrontados fugiram. O Mestre repreendendo-os, e chamou-os de homens de pouca fé, com o que reagiram e expulsaram os soldados. Crendo que Krishna fosse uma das muitas transmigrações divinas, chamaram-no “Jazeu”, o nascido da fé. As mulheres do povo perfumavam-no e incensavam-no, o adorando. Chegando sua hora, Krishna foi para as margens do rio Ganges, entrando na água. De uma árvore, atiraram uma flecha que o matou. O assassino teria sido condenado a vagar pelo mundo. Quando os discípulos procuraram recolher o corpo, não o encontraram mais porque, então, já teria subido para o céu.

Depois Vishnu o teria mandado novamente à Terra pela nona vez, receberia o nome de Buda. O nascimento de Buda teria sido igualmente revelado em sonhos à sua mãe. Nasceu em um palácio, sendo filho de um príncipe hindu. Ao nascer, uma luz maravilhosa teria iluminado o mundo. Os cegos enxergaram, os surdos ouviram, os mudos falaram, os paralíticos andaram, os presos foram soltos e uma brisa agradável correu pelo mundo. A terra deu mais frutos, as flores ganharam mais cores e fragrância, levando ao céu um inebriante perfume. Espíritos protetores vigiaram o palácio, para que nada de mal acontecesse à mãe.

Buda, logo ao nascer, pôs-se de pé maravilhando os presentes. Uma estrela brilhante teria surgido no céu no dia do seu nascimento. Nasceu também, nesse mesmo dia, a árvore de Bó, em cuja sombra o menino deus descansaria. Entre os que foram ver Buda estava um velho que, como Semeão, recebeu o dom da profecia. Sua tristeza seria não poder assistir à glória de Buda por ser muito velho. Buda teria maravilhado os doutores da lei com a sua sabedoria. Com poucos anos de idade, teria começado sua pregação. Teria ficado durante 49 dias sob árvore de Bó, e sido tentado várias vezes pelo demônio. Pregando em Benares, convertera muita gente.

O mais célebre de seus discursos recebeu o nome de “Sermão da Montanha”. Após sua morte apareceria também aos seus discípulos, trazendo a cabeça aureolada. Davadatta o trairia do mesmo modo que Judas a Jesus. Nada tendo escrito, os seus discípulos recolheriam os seus ensinamentos orais. Buda também tivera os seus discípulos prediletos, e seria um revoltado contra o poder abusivo dos sacerdotes bramânicos. Mais tarde, o budismo ficaria dividido em muitas seitas, como o cristianismo. Quando missionários cristãos estiveram na índia, ficaram impressionados e começaram a perceber como nasceu o romance da vida de Jesus. O Papa do budismo, o Dalai-Lama, também se diz ser infalível.

Mitra, um deus redentor dos persas, foi o traço de união entre o cristianismo e o budismo. Cristo foi um novo avatar, destinado aos ocidentais. Mitra era o intermediário entre Ormuzd e o homem. Era chamado de Senhor e nasceu em uma gruta, no dia 25 de dezembro. Sua mãe também era virgem antes e depois do parto. Uma estrela teria surgido no Oriente, anunciando seu nascimento. Vieram os magos com presentes de incenso, ouro e mirra, e adoraram-no. Teria vivido e morrido como Jesus. Após a morte, a ressurreição em seguida.

Fírmico descreveu como era a cerimônia dos sacerdotes persas, carregando a imagem de Mitra em um andor pelas ruas, externando profunda dor por sua morte. Por outro lado, festejavam alegremente a ressurreição, acendendo os círios pascais e ungindo a imagem com perfumes. O Sumo Sacerdote gritava para os crentes que Mitra ressuscitara, indo para o céu para proteger a humanidade.

Os rituais do budismo, do mitraísmo e do cristianismo são muito semelhantes. Horus foi o deus solar e redentor dos egípcios. Horus, como os deuses já citados, também nasceria de uma virgem. O nascimento de Horus era festejado a 25 de dezembro. Amenófis III criou um mito religioso que depois foi adaptado ao cristianismo. Trata-se da anunciação, concepção, nascimento e adoração de Iath. Nas paredes do templo, em Luxor, encontram-se os referidos mistérios. Baco, o deus do vinho, foi também um deus salvador. Teria feito muitos milagres, inclusive a transformação da água em vinho e a multiplicação dos peixes. Em criança, também quiseram matá-lo. Adonis era festejado durante oito dias, sendo quatro de dor e quatro de alegria; as mulheres faziam as lamentações, como carpideiras.

O rito do Santo Sepulcro foi copiado do de Adonis. Apagavam todos os círios, ficando apenas um aceso, o qual representava a esperança da ressurreição. O círio aceso ficava semi-escondido, só reaparecendo totalmente no momento da ressurreição, quando então o pranto das mulheres era substituído por uma grande alegria. Também os fenícios, muitos milênios antes, já tinham o rito da paixão, do qual copiaram o rito da paixão de Cristo. Todos os deuses redentores passaram pelo inferno durante os três dias entre a morte e a ressurreição. Isto é o que teria acontecido com Baco, Osiris, Krishna, Mitra e Adonis. Nestes três dias, os crentes visitavam os seus defuntos, segundo Dupuis, em “Lè Origine des tous les cultes”.

Todos os deuses redentores eram também deuses-sol, como Átis, na Frígia; Balenho, entre os celtas; Joel, entre os germanos; Fo, entre os chineses. Assim, antes de Jesus Cristo, o mundo já tivera inúmeros redentores. Com este ligeiro apanhado da mitologia dos deuses, deixo patente a origem do romance do Gólgota. Acredito ter esclarecido quais as fontes onde os criadores do cristianismo foram buscar inspiração.

Os artigos anteriores nos permitem constatar que, nas diversas épocas da história, as religiões transformam-se variando em razão da complexidade cada vez maior das sociedades em que elas existem.

Vimos que a crença em um deus redentor é muito anterior ao judaísmo, sempre ligada à ânsia da necessidade de redenção das tremendas aflições do povo. Quanto ao Jesus Cristo, este resultou de uma série de mitos que os hebreus copiaram dos babilônicos, dos egípcios e de outros povos, visando com isto dar consistência ao judaísmo.

Estudos filológicos forneceram as bases para o estabelecimento de um traço de união entre as crenças dos deuses orientais e o judaísmo. Vejamos, por exemplo, as palavras Ahoura-Mazzda e Jeová, que significam “O que é”. Partindo de velhas lendas orientais, e baseando-se na origem comum da palavra, foi compilado o Gênese, numa tentativa de explicar a criação do mundo. Segundo o Zend-Avesta, o Ser Eterno criou o céu e a Terra, o Sol a Lua, as estrelas, tudo em seis períodos, aparecendo o homem por último.

O descanso foi posto no sétimo dia. Manu havia ensinado, muito antes, que no começo tudo era trevas, quando Brahma dispersou-as, criou e movimentou a água, em seguida produziu os deuses secundários, os anjos dirigidos por Mossura, os quais posteriormente se rebelariam contra Deus. Veio então Shiva, e os prendeu no inferno. Shiva tornou-se a terceira pessoa da Santíssima Trindade Bramânica em conseqüência das sucessivas invasões bárbaras sofridas pela Índia. Os bárbaros, crendo em Shiva, o deus da lascívia e da sensualidade, impuseram sua inclusão, surgindo assim a trindade divina de Bhrama.

Manu ensinara igualmente que Deus criara o homem e a mulher, fazendo-os apenas inferior a Devas, isto é, Deus. O primeiro homem recebera o nome de Adima ou Adam, e a primeira mulher, Heva, significando o complemento da vida. Foram postos no paraíso celeste e receberam ordem de procriar. Deveriam adorar a Deus, não podendo sair do paraíso. Mas, um dia, indo ver o que havia fora dali, desapareceram. Bhrama perdoou-os, mas expulsou-os, condenando-os a trabalhar para viver. E disse que, por haverem desobedecido, a Terra se tornaria má, porque o espírito do mal dela se apoderara.

Entretanto, mandaria seu filho Vishnu que, se encarnando em uma virgem, redimiria a humanidade, libertando-a definitivamente do pecado da desobediência.

Ormuzd teria prometido ao primeiro casal humano que, se fossem bons, seriam felizes na terra. Mas Arimã mandou que um demônio em forma de serpente aconselhasse a desobedecerem a deus. Comeram os frutos que Arimã lhes deu, acabou a felicidade humana, e todos os que nascessem daí em diante seriam infelizes. Sendo levados cativos para a Babilônia, os judeus ali encontraram tal lenda.

Libertos, voltando à Judéia, trouxeram essa crendice, como também a crença da imortalidade da alma e da vida futura, dos espíritos bons e espíritos maus, surgindo daí os anjos Gabriel, Miguel e Rafael, os querubins e serafins. Nasceu daí o mito do diabo, o anjo rebelado.

A palavra paraíso é o termo persa que significa jardim. Os persas, os hindus, os egípcios e os gregos acreditavam no paraíso. Da mesma forma, todos eles acreditavam no inferno. Entretanto, as crenças antigas desconheciam os castigos eternos, que foram criados pelo cristianismo, aliás, uma das poucas coisas originárias dessa crença. Também o purgatório, naturalmente, é outra novidade do cristianismo, sendo desconhecido do judaísmo. A idéia do purgatório vem de Platão, que havia dividido as almas em puras, curáveis e incuráveis.

Os filhos de Adima e Heva haviam se tornado numerosos e maus. Por isso, Deus mandou o dilúvio para matá-los. Mas deu ordem a Vadasuata para construir um barco e nele entrar com a família, devido ao fato de ser um homem virtuoso. Deveria levar consigo, além da família, um casal de cada espécie de animal existente: esta é a história do dilúvio relatada nos Vedas, e que foi incluída na Bíblia dos hebreus.

As origens do cristianismo repousam, incontestavelmente, nas lendas e crenças dos deuses mitológicos, não apenas dos judeus, mas também de outros povos.

Os caldeus e os fenícios, como os judeus, haviam se especializado no comércio, e por dever de ofício, se alfabetizaram. Assim, sabendo ler e escrever, puderam copiar as lendas e o folclore dos povos com os quais comerciavam e conviviam, os quais puderam adquirir longevidade e se fixar melhor na memória humana.

Sendo comerciantes por excelência, os judeus perceberam que a religião poderia se tornar uma boa mercadoria, através da qual adviria o domínio de muitos povos e vontades. Desta forma, tendo compilado o que julgaram mais interessante ou mais proveitoso em relação aos seus propósitos, passaram a difundir pelo mundo as suas idéias religiosas. Com isto, o conhecimento e a razão foram substituídos pelas crendices e superstições religiosas.

Desde há muito a religião tem servido para moderar os impulsos humanos, sobretudo daqueles que pertencem a uma classe social menos favorecida. Saliento o prejuízo que o mundo tem sofrido com o rebaixamento mental imposto com as crenças e superstições religiosas, com o que o conhecimento sofre uma estagnação sensível.

No entanto, o homem tem se deixado levar pelas crenças e práticas religiosas sem que nenhum benefício lhe seja dado em retribuição. O homem tem feito tudo para si mesmo, apesar de sua religiosidade. A única classe beneficiada realmente com a religião é a dos sacerdotes.

Bom, vamos retomar o assunto em pauta, após essa rápida digressão. A Bíblia cita dez patriarcas que teriam morrido em idade avançada, antes do dilúvio. Contudo, essa lenda provém da tradição caldáica, segundo a qual dez reis governaram durante 432 anos. Da mesma forma, as lendas hindus, egípcias, árabes, chinesas ou germânicas fazem referência a homens que tiveram uma longa vida, como a do Matusalém da Bíblia.

Igualmente, a lenda de Abraão, que deveria sacrificar o seu filho Isaac, procede de lendas anteriores ao judaísmo. O livro das profecias hindus relata uma história igual. Ramatsariar conta que Adgitata, protegido de Brahma por ser um homem de bem, teve um filho que nasceu tão milagrosamente como Jesus. Entretanto Brahma, para experimentá-lo, lhe ordena que sacrificasse o filho. Ele obedece, mas Brahma impede-o no momento exato. Seu filho seria o pai de uma virgem a qual, por sua vez, seria a mãe do deus-homem.

José e a mulher de Putifar foi a cópia de uma velha lenda egípcia, conforme documentos recentemente traduzidos. Era uma história intitulada “Os dois irmãos”.

Emílio Bossi, relatando o achado, dá a palavra a Jacolliot: “Um homem da Índia fez leis políticas e religiosas; chamava-se Manu. Esse mesmo Manu foi o legislador egípcio, Manas. Um cretense vai ao Egito estudar as instituições que pretende dar ao seu país, e a história confirma isto dizendo que esse cretense foi Minos.

Enfim, o libertador dos escravos judeus chamava-se Moisés, que teria recebido as leis das mãos do próprio Jeová. Temos, então, Manu, Manes, Minos e Moisés, os quatro nomes que predominaram no mundo antigo. Aparecem na hitória de quatro povos diferentes para representar o mesmo papel, rodeados da mesma auréola misteriosa, os quatro são legisladores, grandes sacerdotes e fundadores das sociedades teocráticas e sacerdotais. Esses quatro nomes têm a mesma raiz sânscrita. O hinduismo deu origem ao judaísmo. Por isso, de Jeseu Krishna fizeram Jesus Cristo”.

Documentos recentemente estudados mostram terem sido os hindus os prováveis colonizadores do Egito. A documentação demonstra que o conhecimento nasceu do saber hindu.

A assiriologia mostra que a lenda de Moisés foi copiada da de Sargão I, rei acádio, que igualmente teria sido salvo em um cesto deixado no rio, à deriva.

A lenda de Sansão é outro exemplo. Sansão representa o Sol. O poder que lhe foi atribuído é o mesmo dos deuses solares. E assim, examinando os escritos de antigas civilizações, chegamos ao conhecimento das origens de tudo o que a Bíblia narra como fatos reais. Concluímos então que Jesus Cristo nada mais representa que uma cópia das lendas e mitos dos deuses adorados por povos os mais remotos e variados.

Percebendo a importância da luz do Sol sobre a Terra, o homem imaginou que essa luz seria uma emanação protetora de Deus. Da idéia de que existia um único Sol surgiu o monoteísmo, isto é, a crença em um só Deus.

Das palavras Devv e Divv, que em sânscrito significam Sol e luminoso, originou-se a palavra deus. Daí, em grego, a palavra Zeus; em latim, deo; para os irlandeses, dias; em italiano dio, etc.

A parte do tempo em que a Terra recebe a luz do Sol recebeu o nome dia em oposição ao período de trevas, a noite. O dia teria sido um presente divino, graças à luz solar. Conseguindo produzir o fogo, aumentou a crença humana no deus Sol.

Graças ao fogo, o homem pôde libertar-se de um dos seus maiores inimigos, que era o frio, assim como passou a cozinhar os seus alimentos. Devendo cada vez mais a vida ao calor, a gratidão do homem para com o Sol cresceu ainda mais. Foi assim que nasceu o mito solar, do qual Jesus Cristo é o último rebento.

Por uma série de deduções, chegaram igualmente à concepção do significado místico da cruz. Dos raios solares foi criada uma cruz, espargindo raios por todos os lados. Da mesma forma foi a idéia do Espírito Santo, um espírito caridoso que irradia a bondade divina. Depois a seqüência mística do Sol, o fogo e o vento, dando origem a Salvitri, Agni e Vayu, do mito védico.

O rito védico celebra o nascimento de Salvitri, o deus-sol, em 25 de dezembro, no solstício, quando aparecem as refulgentes estrelas. As estrelas trazem a boa nova, a perspectiva de boas colheitas. Daí os sacrifícios e os ritos propiciatórios oferecidos ao deus-sol.
Assim os cristãos encontraram o seu Jesus Cristo.

A vida dos deuses redentores é a vida do Sol. Por isso, todos eles tiveram suas datas de nascimento fixadas em 25 de dezembro: Mitra, Horus e Jesus Cristo. Também é simbólica a ressurreição na primavera, tempo da germinação e das folhas novas. Baseando-se nisto, Aristóteles e Platão admitiram uma certa racionalidade dos que adoravam o Sol.

Heródoto e Estrabão diziam que Mitra era o deus-sol, tendo por emblema um sol radiante. Plutarco conta que o culto de Mitra veio para a Sicília trazido pelos piratas do mar. Em escavações feitas no solo italiano, foram encontradas placas de barro solidificados ao sol trazendo esta inscrição: “Deo Soli Invicto Mitrae”, lembrando o deus dos persas.


Niceto escreveu que certos povos adoraram a Mitra como o deus do fogo, outros como sendo o deus-sol. Júlio Fírmino Materno disse que Mitra era a personificação do deus fogo, enquanto Aquelau considerava-o o deus-sol. São Paulino descreveu os mistérios de Mitra como sendo os de um deus solar e redentor. Karneki, rei hindo-escita, no começo de nossa era, mandou cunhar moedas em que se vê a efígie de Mitra dentro de um sol radiante. Mitra ainda era representado com um disco solar na cabeça, segurando um globo com a mão esquerda.

Do mesmo modo os cristãos representam Jesus Cristo. Era o Senhor. Ao surgir o cristianismo, os cristãos primitivos ainda chamavam o Sol de “Dominus”, com o que, lentamente, foi absorvendo o ritual mitráico. No Egito, o Sol era o “Pai Celestial”. Um obelisco trazido para o Circo Máximo de Roma trazia esta inscrição: “O grande Deus, o justo Deus, o todo esplendente”, tendo um sol espargindo seus raios para todos os lados. Da mesma forma, todos os deuses dos índios americanos pertenciam ao rito solar, assim como os deuses dos hindus, dos chineses e japoneses. Os caldeus, adorando o Sol como seu deus, dedicaram-lhe a cidade de Sípara, onde ardia o fogo sagrado, eternamente, em sua honra. Em Edessa e em Palmira foram encontrados templos dedicados ao deus-sol. Orfeu considerava o sol como sendo o deus maior. Agamenon disse que o sol era o deus que tudo via e de que tudo provinha.

Os judeus e os líderes do cristianismo, para a formação deste, só tiveram que adaptar as crenças e rituais antigos a uma nova personagem: Jesus Cristo. Toda a roupagem necessária para vestir o novo deus pré-existia. Apenas era necessário moldá-la um pouco.

Tendo em vista o completo silêncio histórico a respeito de Jesus Cristo, bem como as evidentes ligações deste com o mito dos deuses-solares, Dupuis escreveu o seguinte:

“Um deus nascido de uma virgem no solstício do inverno, que ressuscita na Páscoa, no equinócio da primavera, depois de haver descido ao inferno; um deus que leva atrás de si doze apóstolos, correspondentes às doze constelações; que põe o homem sob o império da luz, não pode ser mais que um deus solar, copiado de tantos outros deuses heliosísticos em que abundavam as religiões orientais. No céu da esfera armilar dos magos e dos caldeus via-se um menino colocado entre os braços de uma virgem celestial, a que Eratóstenes dá como Ísis, mãe de Horus. Seu nascimento foi a 25 de dezembro. Era a virgem das constelações zodiacais. Graças aos raios solares, a virgem pôde ser mãe sem deixar de ser virgem… Via-se uma jovem ‘Seclanidas de Darzana’, que em árabe é ‘Adrenadefa’, e significa virgem pura, casta, imaculada e bela… Está assentada e dá de mamar a um filho que alguns chamam de Jesus e, nós, de Cristo.”

Já mostrei que Jesus repete todos os mistérios dos deuses solares e redentores, pelo que Heródoto, Plutarco, Lactâncio e Firmico puderam afirmar que esse deus redentor é o Sol. De modo que Jesus é apenas mais um deus solar.

Ainda hoje, grande parte do rito cristão é de origem solar. Na Bíblia, encontramos estas palavras: “Deus estabeleceu sua tenda no Sol”, e ainda: “Sobre vós que temeis o meu nome, levantar-se-á o Sol da justiça e vossa vida estará em seus raios”. João diz que “o verbo é a lei, a luz e a vida, a luz que ilumina a vista de todos os mortais, a luz do mundo”. E ainda chama a Jesus de o “cordeiro”, o “Agnus Dei qui tollit peccata mundi”.

Com isto, o Apocalipse fez de Jesus o “cordeiro pascal”, e a Igreja o adorou sob a forma de um cordeiro até o ano de 680. Era o Cristo o Áries zodiacal, vindo de Agnus, com a representação de fogo, o Sol condensado. Origenes justificava a adoração do Sol tendo em vista a sua luz sensível e também pelo aspecto espiritual. Tertuliano reconheceu que o dogma da ressurreição tem sua origem na religião persa de Mitra. Para S. Crisóstomo, Jesus era o Sol da justiça, para Sinésio, o Sol intelectual. Fírmico Materno descreveu Jesus baixando ao inferno, esplendente como o Sol. O domingo, o dia do Senhor, o dia do descanso, procede de Dominus, o deus-sol, o Senhor. Segundo Teodoro e Cirilo, para o maniqueus Cristo era o Sol.

Os Saturnilianos acreditavam que a alma tinha substância solar, deixando o corpo e voltando para o Sol, de onde proviera, após a morte. O antigo rito do batismo determinava que o catecúmeno voltasse o rosto em primeiro lugar para o ocidente, para retirar de si Satanás, símbolo das trevas.

Igualmente, as festas do sábado santo são reminiscências do mito da luta do Sol contra as trevas, na Páscoa. As orações desse ofício são cópia dos hinos védicos. A palavra aleluia, que era o grito de alegria dos persas, adoradores do Sol, quando na Páscoa festejavam a sua volta, significa: elevado e brilhante.

Foram necessários muitos séculos para que a igreja pudesse alienar um pouco do que lembrava que o seu culto era de um deus solar. Entretanto, a história escrita é inflexível e demonstra que todos os deuses redentores ou solares foram tão adorados quanto o mitológico Jesus Cristo. E embora tenha havido longas fases em que foram impostos a ferro e fogo, nem por isto deixaram de cair, nada mais sendo hoje do que o pó do passado religioso do homem.

O certo é que Jesus Cristo é mitológico de origem, natureza e significado. O seu surgimento ocorreu para atender à tendência religiosa e mística da maioria, que ainda hoje teme as realidades da vida e, portanto, procura, para se orientar, algo fora da esfera humana, na esperança de assim conseguir superar a si mesmo e aos obstáculos que surgem diariamente.

O cristianismo é produto de tendências naturais de uma época, aproveitadas espertamente pelos líderes do cristianismo. O judeu pobre e oprimido, não tendo para quem apelar, passou a esperar de Deus aquilo que o seu semelhante lhe negava. O sacerdote, valendo-se do deplorável estado de espírito de uma população faminta e, sobretudo, desesperançada, ressuscitou um dentre os velhos deuses para restaurar a esperança do povo judeu.

E assim, surgiu mais um mito solar, mais um deus com todos os atributos divinos, tal como os que antecederam. O novo deus solar em questão é Jesus Cristo.


Conforme disse várias vezes, o cristianismo tomou por empréstimo tudo quanto se fez necessário à sua formação. Assim, todos os ensinamentos atribuídos a Cristo foram copiados dos povos com os quais os judeus tiveram convivência. A sua moral, a moral que Cristo teria ensinado, aprendeu-a com os filósofos que o antecederam em muitos séculos. De modo que não há inovações em nenhum setor ou aspecto do cristianismo. Antigos povos, milênios antes, adoraram seus deuses semelhantemente.

Dentre as máximas adotadas pelo cristianismo, comento a seguinte: “Não faças aos outros o que não queres que a ti seja feito”. Este ensinamento não teria partido de Jesus, conforme pretendem os cristãos, não sendo sequer uma máxima cristã, originariamente. Encontraremos ela em Confúcio, e ainda no bramanismo, no budismo e no mazdeismo, fundado por Zoroastro. Era uma orientação filosófica e religiosa, adotada pelos hindus.

A originalidade do cristianismo consistiu apenas em criar as penas eternas, um absurdo desumano e irracional. Enquanto isso, o mazdeismo cria a possibilidade de regeneração do pior bandido, admitindo mesmo a sua plena reintegração no seio da sociedade. O perdão aos inimigos foi, muito antes de Jesus, aconselhado por Pitágoras. Os egípcios religiosos praticavam uma moral muito elevada. No “Livro dos Mortos” encontramos a confissão negativa, de acordo com a qual a alma do morto comparecia ante o tribunal de Osiris e proferia em alta voz as suas más ações. O sentimento de igualdade e fraternidade para com os homens foi ensinado por Filon.

O cristianismo adotou os seus ensinamentos, atribuindo-os a Jesus. São de Filon as seguintes palavras: “Os que exaltam as grandezas do mundo como sendo um bem, devem ser reprimidos.”; “A distinção humana está na inteligência e na justiça, embora partam do nosso escravo, comprado com o nosso dinheiro.”; “Porque hás de ser sempre orgulhoso e te achares superior aos outros?”; “Quem te trouxe ao mundo? Nu vieste, nu morrerás, não recebendo de Deus senão o tempo entre o nascimento e a morte, para que o apliques na concórdia e na justiça, repudiando todos os vícios e todas as qualidades que tornam o homem um animal”; “A boa vontade e o amor entre os homens são a fonte de todos os bens que podem existir”.

Como vemos, não há nada de novo no cristianismo. Platão salientou a felicidade que existe na prática da virtude. Ensinou a tolerância à injúria e aos maus tratos, e condenou o suicídio. Recomendou o humanismo, a castidade e o pudor, e condenou a volúpia, a vingança e o apego demasiado aos bens. Sua moral baseou-se na exaltação da alma, no desprezo dos sentidos e na vida contemplativa. O Padre Nosso foi copiado de Platão. Quem conhece bem a obra de Platão percebe os traços comuns entre a mesma e o cristianismo. Filon inspirou-se em Platão e, a Igreja, na obra de Filon, que helenizou o judaísmo.

Aristóteles afirmou que a comunidade repousa no amor e na justiça. Admitia a escravatura, mas libertou os seus escravos. Poderiam existir escravos, mas não a seu serviço. A comunidade deveria instruir a todos, independentemente da classe social, com o que ensinou o evangelho aos Evangelhos.

A abolição do sacrifício sangrento não foi introduzida pelo cristianismo. Não lhe cabe tal mérito. Gélon, da Sicília, firmando a paz com os cartagineses, estipulou como condição a supressão do sacrifício de vidas animais aos seus deuses.

Sêneca aconselhava o domínio das paixões, a insensibilidade à dor e ao prazer. Recomendava igualmente a indulgência para com os escravos, dizendo que todos os homens são iguais. Referia-se ao céu como fazem os cristãos, afirmando que todos são filhos de um mesmo pai. Concebia como pátria o Universo. Os homens deveriam se ajudar e se amar mutuamente. Enquanto isso, o humanismo cristão limitou-se apenas aos irmãos de fé. O bem visa somente a salvação da alma, o que é egoísmo, nunca humanismo. Sêneca manifestou-se contrário à pena de morte; o cristianismo, ao contrario, é responsável por inúmeras execuções. Admitia a tolerância mesmo em face da culpa. Em vez de perseguir e punir, por que não persuadir, ensinar e converter?

Epíteto e Marco Aurélio foram bons professores dos cristãos. Os filósofos greco-romanos foram grandes mestres da moral cristã e da consolação, sem que para isto criassem empresas, negócios ou castas. O cristianismo existente antes de Jesus Cristo já pregava a moral anterior ao martírio do Gólgota. A moral cristã não veio de Jesus Cristo nem dos Evangelhos, mas nasceu da tendência natural para o aperfeiçoamento do homem.

Não fosse a destruição sistemática de antigas bibliotecas, determinada pelo clero no intuito de preservar os seus escusos interesses, hoje seria possível patentear com documentos à mão que a moral anterior à cristã era bem melhor do que esta, tendo-lhe servido de modelo. Assim, se vê que a moral jamais foi patrimônio de castas ou de indivíduos, sendo uma lenta conquista da humanidade, com ou sem religião, e mesmo contra ela. Por isso é que o mundo racionaliza-se continuamente, e avança sempre no sentido do seu aperfeiçoamento.

A bondade humana independe da idéia religiosa. A razão nos ensina o que devemos ao nosso meio social, independentemente da fé e da religião. Para justificar o aparecimento de Jesus, se fez necessário recorrer a uma moral que, no entanto, já era um patrimônio da humanidade. Jesus nada mais foi do que a materialização de qualidades que já existiam. Por isso, mesmo em moral, Jesus foi ator, não autor. O cristianismo apenas sistematizou e industrializou essa velha moral, estabelecendo-a como um rendoso comércio. A Igreja é responsável pela deturpação dessa moral.

Havia a moral pela moral, que foi substituída pela moral bíblica, em que só se é bom para ganhar o céu. Superpondo-se um grupo empresarialmente forte, extinguiu-se a moral individual.

Pesquisas e estudos comparados têm demonstrado que a mitologia judaico-cristã é bem anterior ao próprio judaísmo, quando se percebe que dogmas como o da imortalidade da alma, da ressurreição e do Verbo encarnado são muito anteriores ao cristianismo.

A imortalidade da alma já tinha milênios quando os judeus foram levados cativos para a Babilônia. Zoroastro ensinara, muito antes, ser a alma imortal, e que essa imortalidade seria produto de uma opção humana. O livre arbítrio levaria o homem a escolher uma vida que o levaria ou não à imortalidade. O erro e o mal produziriam a morte definitiva, a prática do bem, a imortalidade. Do mesmo modo, na Ciropédia, bem anterior a Zoroastro, se lê que Ciro, moribundo, disse: “Não creio que a alma que vive em um corpo mortal se extinga desde que saia dele, e que a capacidade de pensar desapareça apenas porque deixou o corpo que não tem como pensar por si mesmo”. Por outro lado Einstein, pouco antes de morrer, declarou não crer que algo sobrasse do ser vivo após a morte. Os egípcios, os hindus, os sumérios, os hititas e os fenícios criam na imortalidade da alma.

A ressurreição foi um dos fundamentos do Zend-Avesta. Zoroastro também ensinou que o fim do mundo seria precedido por um grande acontecimento, a ser predito por profetas. Os persas tiveram os seus profetas, que foram Ascedermani e Ascerdemat, os quais passaram à Bíblia sob os novos nomes de Enock e Elias, entidades míticas, como se vê. Desses mitos surgiram o Talmud e os Evangelhos, o que mostra que, em religião, a idéia original pertence à noite dos tempos.

A doutrina do Verbo já era antiqüíssima no Egito. Deus teria gerado Kneph “a palavra, o Verbo”, que é igual ao pai. Da união de Deus com o Verbo nasceu o fogo, a vida, Fta, a vida de todos os seres.

O monoteísmo e a Santíssima Trindade eram crenças muito antigas na Índia. Os deuses únicos e os deuses secundários são uma velha doutrina oriental. A religião greco-romana já possuía o seu Apolo e Zeus, rodeados por uma porção de deuses secundários. Essas velhas lendas deram origem ao Deus do cristianismo, com toda sua corte de santos e anjos.

O politeísmo há muito vinha caminhando para o monoteísmo. Os gregos já haviam concebido a idéia de um intermediário entre os homens e Júpiter, que era Apolo, tendo encarnado para redimir os homens. Porfírio citou o seguinte oráculo de Serapis: “Deus é antes e depois e ao mesmo tempo, é o Verbo e o Espírito, como um e outro”. O mundo antigo cria em um Deus único, pai de todas as coisas, afirmou Máximo de Tiro. O povo então já dizia: Deus o sabe! Deus o quer! Deus o abençoe! Os oráculos só se referiam a Deus e não aos deuses.

Os apologistas do cristianismo, tais como Eusébio, Agostinho, Lactâncio, Justino, Atanásio e muitos outros, ensinavam que unidade de Deus era conhecida desde a mais remota antiguidade. Os órficos, inclusive, a admitiam. Na Bíblia, ao ser traduzido para o grego e para o latim, o nome de Deus passou a ser muitas vezes Senhor, Dominus, para ficar conforme o nome do Deus-sol do mitraísmo.

O amor a Deus foi a base de todas as religiões copiadas pelo judaísmo. Isaías falava de Deus como Pai Celestial. Ezequiel dizia que Deus não queria a morte do pecador, preferindo antes a sua conversão. O justo viverá eternamente pela fé. São palavras de Habacuc, repetidas por Paulo em Gálatas 3:2.

Como vimos a doutrina do Verbo vem de Platão, tendo sido este o intermediário entre os metafísicos e os cristãos. Foi ele quem concebeu a idéia da separação do corpo e da alma e pôs aquele na dependência desta. Na sua opinião, a Terra era o desterro da alma. Foi o criador do sistema filosófico da decadência moral do homem, fazendo dos sentidos uma ameaça, do mundo um mal e da eternidade o delírio, o sonho.

Cícero e Sêneca tinham idéias cristãs, mas não conheceram a Jesus Cristo nem ao cristianismo. Agostinho leu as obras de Cícero e trocou o maniqueísmo pelo cristianismo. A Igreja procurou destruir as principais obras de Cícero e de Sêneca para que a posteridade não percebesse que eles não tinham sido cristãos seguidores de Cristo, mas apenas que as suas idéias coincidiam com as que o cristianismo esposou. O cristianismo nasceu da helenização do judaísmo.

Os cristãos terapeutas abandonaram o judaísmo ortodoxo porque este tinha posto de lado o culto nacional do templo e o sacrifício Pascal, retirando-se para uma vida contemplativa nos montes, longe dos homens e dos negócios. Estabeleceram uma sociedade comunal, considerando o casamento um apego à carne, um empecilho à salvação da alma. Baniram os principais prazeres da vida, exaltando o celibato e a pobreza, como os essênios, além de aconselhar a caridade. Eusébio chamou aos terapeutas de cristãos sem Cristo. Para ele, um terapeuta era um autêntico cristão. Isto levou Strauss a escrever: “Os terapeutas, os essênios e os cristãos dão sempre muito o que pensar”.

A doutrina dos essênios, a moral dos terapeutas, a encarnação do Verbo, vinda do judaísmo helenizado, é o cristianismo de Filon. Desse modo, Filon foi criador do cristianismo, sem saber. Ele se refere ao Verbo nos termos da mitologia egípcia sem, contudo, mencionar a crença em Jesus Cristo. Salomão fez da sabedoria divina a criação. O Livro da Sabedoria define a natureza desse principio intermediário, transformando o pensamento vago do rei judeu sobre a sabedoria da doutrina do Verbo.

Sirac, em “Eclesiástico”, faz a doutrina do Verbo ser mais precisa: “A sabedoria vem de Deus, estando sempre com ele. Foi criada antes de todas as coisas. A voz da inteligência existe desde o principio. O Verbo de Deus, no mais alto do céu, é a fonte da sabedoria”! Filon disse que o Verbo se fizera humano. Segundo ele, Deus era infalível e inacessível à inteligência humana, não nos alcançando senão pela graça divina. Para ele, ainda, o Verbo não era apenas a palavra, mas a imagem visível de Deus.

O Verbo seria o Ungido do Senhor, o ideal da natureza — o Adão Celeste é a doutrina da encarnação do Verbo — tomando a forma humana. O Verbo é o intermediário entre Deus e os homens. Diz ainda que o Verbo é o pão da vida.

Por ai vemos que não foi o Cristo o criador do cristianismo, mas este é que o criou. Clemente de Alexandria, Origenes ou Paulo, assim como os primeiros padres do cristianismo, jamais se referiram a Jesus Cristo como tendo sido um homem que tivesse caminhado do Horto ao Gólgota, mas o tiveram apenas como o Verbo, conforme a doutrina de Platão e de Filon.

Está patente a existência do cristianismo sem Cristo. A existência do clero, por outro lado, foi uma exigência bramânica.

Pregando por meio de parábolas, os sacerdotes se faziam necessários para esclarecer o sentido das mesmas. Assim se justificava o pagamento com as esmolas dos crentes. Ensinavam a religião e se apoderavam do dinheiro. Suas terras e os templos já eram isentos dos impostos. O sumo-sacerdote não se casava e era venerado como um deus.

No budismo, tanto os bonzos como os mosteiros são mantidos pela comunidade e os monges, igualmente, não se casam. O Dalai-Lama é o Vigário de Deus, o sucessor de Fó, sendo Infalível como o Papa se diz ser. Nos mosteiros todos se chamam de irmãos.

O clero persa era dividido em ordens hierárquicas, e tinha o direito a um décimo da renda da comunidade. Os magos persas, como os profetas judeus, eram puros e não trabalhavam.

No Egito, a classe mais alta era a dos sacerdotes. Elegiam o rei e limitavam a sua ação. O povo arrendava as terras do templo. Só o clero ensinava a religião e presidia aos sacrifícios. O regime era teocrata e todos tinham de submeter-se às regras eclesiásticas. O sacerdote era o adivinho, fazia os oráculos, as profecias, os sortilégios e os exorcismos. Afirmava ter força sobre a natureza, para o bem da humanidade.

Os brâmanes procuravam afugentar os malefícios e as maldições. Para isto, cultivam certas plantas, como o lótus e o cânhamo, das quais faziam licores como o “amrita”, que possuía virtudes milagrosas. Tinham as mesmas modalidades de expiação ainda hoje adotadas pelo cristianismo.

As mortificações hindus são as mesmas praticadas pelos cristãos medievais. Certos crentes carregaram durante toda a vida enormes colares de ferro, outros, pesadas correntes de ferro. Alguns se marcavam com o ferro em brasa, avivando a ferida todos os dias. Muitos vão rolando deitados até Benares, pagar ali suas promessas. Também usam sandálias cravadas de finos pregos, os quais entram pelas solas dos pés.

No Egito, os sacerdotes de Ísis açoitavam-se em sua honra, expiando, com isso, suas próprias culpas e as do povo.

Entre os gregos havia a água lustral para as expiações e para as propiciações.

Os sacerdotes de Dodona feriam-se e os de Diana praticavam tais coisas em seus corpos, que às vezes punham em perigo a própria vida.

Os romanos procuravam livrar-se das calamidades públicas oferecendo aos seus deuses sacrifícios humanos.

Os Indostânicos tornavam-se celibatários, pediam esmolas, jejuavam e se isolavam do convívio com outras Pessoas.

No budismo, as crianças eram ensinadas a fazer votos de castidade. O governo concedia honras especiais ao que chegavam aos 40 anos castos. No Egito, existiam mosteiros apropriados para os que faziam votos de castidade. Também os sacerdotes de Baco, na Grécia, faziam tais votos. Os sacerdotes de Cibele eram castos e castrados.

Em Roma, as Vestais viviam em mosteiros, indo para eles até aos seis anos de idade, e juravam não deixar extinguir-se o fogo sagrado e manterem-se virgens. A que faltasse ao juramento seria enterrada viva e, o amante, condenado à morte.

Os budistas consagravam o pão e o vinho, representando o corpo e o sangue de Agni, quando os bonzos aspergiam os crentes. Enquanto aspergem água lustral, cantam hinos ao sol e ao Fogo, o “Kirie Eleison” que os católicos copiaram e cantam ou recitam durante a missa. Inicialmente o sacrifício constava da imolação de uma pessoa, a qual posteriormente foi substituída pela hóstia. Tal como o padre católico, o sacerdote budista também lava as mãos antes das libações. A cerimônia budista é em tudo semelhante à missa da Igreja Católica. Os persas tinham, em seus ritos religiosos, a eucaristia, ou seja, a mesma oferenda do pão e do vinho que também consta do ritual da missa, bem como o Pater Noster, o Credo e o Confiteor.

Na Grécia, rezava-se pela manhã e à noite. Os etruscos juntavam as mãos quando oravam. Também a confissão lá era praticada pelos persas. O ritual do catolicismo tem muito do ritual mitraico, assim como a vestimenta dos sacerdotes católicos foi copiada do figurino dos sacerdotes de Mitra.

Muitas das religiões pré-cristãs já festejavam a Páscoa e a Natividade. Os persas inclusive dedicaram um dia aos mortos. E, no dia em que o filho começava a receber instrução religiosa, havia festa na casa dos pais. Entre os gregos, cada dia da semana era dedicado a um deus. Os Hindus viviam peregrinando de um templo para outro. Criam na existência de dias bons e dias maus, como também em sortilégios e malefícios. Cada pessoa era dedicada a um anjo que a protegia desde o nascimento. Benziam as vacas, os instrumentos agrícolas e animais domésticos.

A história do passado religioso do homem está repleta de virgens puras e belas, que são as mães dos deuses. Maria, mãe de Jesus Cristo, é apenas mais uma dentre tantas outras.

Igualmente, as procissões constituem práticas multimilenares. É antiqüíssima tal modalidade de culto. Juno e Diana passearam em caminhadas durante muitos séculos. As cidades sempre se enfeitaram à passagem dos santos e dos deuses.

Por aí vemos que nem Jesus nem o cristianismo têm nada de original. A veneração das imagens já era muito anterior ao cristianismo. Por outro lado, o judaísmo, que as baniu, não foi, entretanto, o primeiro a tomar tal atitude. Plutarco disse que os tebanos não as usavam, assim como Numa Pompílio proibiu os romanos de as usarem, durante o seu governo.

O batismo era uma cerimônia praticada pelos antigos muito antes de se cogitar, sequer, do nome de cristão. Os hindus lavam o recém-nascido em água lustral, dando-lhe um nome de um gênio protetor. Aos oito anos, a criança aprende a recitar os hinos ao Deus-Sol. A extrema-unção também, desde muito antes do cristianismo, era praticada pelos hindus. Copiando detalhes dos ritos e cultos de uma grande variedade de seitas, o cristianismo constituiu o seu próprio ritual, tudo girando em torno do Deus-Sol, no qual, por fim, vestiram a roupa de Jesus Cristo.

O cristianismo deve ser examinado com isenção de ânimo, ainda quando visto como uma das melhores religiões. Ele propõe ter sido Jesus um messias. O termo é tomado do hebraico mesiá que quer dizer ungido. Da versão para o grego resultou Kristós. No caso, messias assume o contexto, como quando se diz ritualmente ungido salvador, ou como em ungido rei. Por influência grega a nova religião em vez de se chamar messianismo, passou a ser cristianismo. Não obstante algumas diferenças semânticas, os termos se equivalem.

Jesus nasceu pelo ano 4, antes de nossa era, “ao tempo do Rei Herodes” (Mateus 2;1), a quem o Evangelista ainda atribuiu a decisão de o matar. Para lograr seu objetivo “mandou massacrar em Belém e nos seus arredores todos os meninos de dois anos para baixo” (Mateus 2;16).

Sabe-se também que Herodes morreu no ano 4 a.C. Se esta narrativa, redigida 50 ou 80 anos depois, for verdadeira, deve-se admitir coerentemente que Jesus já era nascido pelo ano 4 antes da era atual. No inicio da Idade Média o monge Dionísio, O Pequeno (ou o Exíguo) criou a cronologia cristã, tendo errado por pelo menos 4 anos a data do nascimento de Jesus. Não há escritos contemporâneos de Jesus que mencionavam sua existência e doutrina. Este fato oferece muitas dificuldades. O que se escreveu depois, e ainda em outra língua, em grego, cujos conceitos mentais são mais evoluídos e poderão ter alterados nuances de conteúdo.

Pelos anos 60 ou após redigiram-se os 4 evangelhos, escritos respectivamente por Mateus e Marcos, Lucas e João. O novo Testemunho compõe-se destes escritos, e mais os Atos dos Apóstolos (de Lucas), Epistola (de vários Apóstolos e Apocalipse de João).

Como foi que surgiu o cristianismo?

Na interpretação histórico-crítica o processo de surgimento do cristianismo se desenvolveu num espaço relativamente curto. No inicio do ano 28 passou Jesus a pregar, sendo levado à morte no ano 30.

Morto Jesus, se processou uma institucionalização do grupo, com influências novas vindas do helenismo, fato este que provocou uma separação mais profunda ao qual entretanto ficou ligado umbilicalmente. Dali resulta a necessidade de examinar o cristianismo inicial sob duas perspectivas. Numa primeira importa examina-lo frente às seitas judias. Numa segunda perspectiva, quais foram suas fases de desenvolvimento, pelo qual se foi diferenciando, até tomar feição mais ou menos própria.



sábado, 23 de março de 2013

D E U S

A fé humana ultrapassa a discussão da existência dele.


No teto da Capela Sistina, em Roma, Ele tem a forma de um senhor barbado e grisalho, de corpo musculoso e rosto sereno que transmite a segurança e a autoridade de quem sabe que está acima de tudo. Já em rituais xamânicos de origem indígena, Sua força se manifesta nas plantas e nos animais e pode ser sentida por todos aqueles que mantêm relações com a natureza. Para 750 milhões de hindus, não há um só, mas vários Deles: Brahma, Shiva e Krishna, só para ficar nos mais famosos.



Não importa como é retratado, se como homem, luz ou apenas uma energia que emana sobre nós, o fato é que Deus está presente em quase todas as culturas do planeta. Em diferentes religiões e crenças, é freqüente a idéia da existência de uma força maior que ajuda os homens a se guiarem, seja nesta ou em outras vidas.


Durante séculos, na sociedade ocidental, Deus foi apresentado como o único responsável pelo sucesso da aventura humana na Terra. Até que a ciência começou a duvidar disso. Por volta de 1860, Charles Darwin e suas teorias da seleção natural e da evolução das espécies lançaram as primeiras dúvidas sobre a criação divina. A partir daí, cientistas começaram a negar à fé e à religião a possibilidade de explicar sozinha todos os fenômenos naturais. No século 20, filósofos como Nietzsche, Marx, Freud e Sartre chegaram a propor a “morte de Deus” e o início de uma “era da razão”. 

A idéia levanta polêmicas até hoje no mundo inteiro, mas não conseguiu diminuir a fé das pessoas, que passa atualmente por um processo de revitalização, até mesmo entre cientistas. Se Deus existe ou não, cabe a cada um decidir. A pergunta é, no entanto, tão interessante que um inusitado estudo matemático foi realizado há menos de 10 anos na tentativa de respondê-la. Em The Probability of God (A Probabilidade de Deus), o físico inglês Stephen Unwin revela que, segundo seus cálculos, Deus tem 67% de chances de existir!


Na obra, Unwin mostra com equações como chegou a essa conclusão, baseando-se para isso no chamado cálculo bayesiano, que começa com uma probabilidade de 1 para 1 e, depois, vai somando as evidências contra ou a favor da afirmação inicial. Ajudar os pobres? Ponto para o mundo onde Deus existe. Assassinos em série e políticos do mal que roubam de pobrezinhos? Hum, talvez Deus seja apenas imaginação de alguns... e por aí vai. O curioso é que o livro vem acompanhado de várias planilhas de Excel para que o leitor vá colocando suas respostas. Se o físico Stephen Unwin é doido ou oportunista, não vem ao caso. Mas não deixa de ser mais um jeito bastante interessante de continuarmos a refletir a respeito de uma das mais intrigantes questões humanas.



sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

ENSAIOS DE ROBERT G. INGERSOLL - "OS DEUSES" (1872)



"Um Deus honesto é a mais nobre realização do homem"

Tradução: Afonso M. C. Amorim

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Cada nação tem criado seu deus, e o deus sempre se assemelhou a seus criadores. Ele odiava e amava o que eles odiavam e amavam e o deus invariavelmente se encontrava do lado daqueles que detinham o poder.

Todo deus era intensamente patriota e detestava toda nação com exceção da sua. Todos esses deuses exigiam adoração, reverência e submissão. A maioria deles se compraziam com sacrifícios, e o cheiro de sangue dos inocentes era considerado um perfume divino. Todos esses deuses sempre insistiram em ter um vasto número de sacerdotes, e os sacerdotes sempre insistiram em ser apoiados pelo povo, e a principal ocupação do sacerdote era divulgar sobre seu deus, e insistir para que ele poderia eliminar todos os outros deuses.
 
Esses deuses têm sido fabricados sob numerosos modelos, e de acordo com as mais grotescas formas. Alguns tinham milhares de braços; outros, centenas de cabeças; alguns eram adornados com colares de cobras vivas, alguns armavam-se com bastões, outros com espadas e escudos, alguns com fivelas, outros com asas como querubins; alguns eram invisíveis, outros se mostravam por inteiro, alguns mostravam apenas suas costas; alguns eram ciumentos, outros tolos, alguns transformavam-se em homens, outros em cisnes, outros em touros, outros em pombas, outros em espíritos santos, e fizeram amor com belas donzelas humanas. Alguns eram casados e alguns eram considerados velhos solteiros por toda a eternidade.

Alguns tinham filhos, e os filhos se transformavam em deuses, e adorados como seus pais o eram. A maioria desses deuses eram vingativos, selvagens, lascivos e ignorantes. Como geralmente eles dependiam de seus sacerdotes para informação, sua ignorância dificilmente excita nosso assombro.

Esses deuses não sabiam sequer a forma do mundo que eles mesmos criaram, pois supunham que era perfeitamente plano. Alguns pensavam que o dia poderia ser alongado se o sol fosse parado, e que o toque de trombetas poderia derrubar os muros de uma cidade, e todos sabiam tão pouco sobre a natureza do povo que criaram que mandavam o povo amá-los.

Alguns eram tão ignorantes que achavam que o homem poderia acreditar no que quisesse, ou seguindo o seu comando, e que ser conduzido pela razão, observação e experiência, seria o mais terrível e imperdoável dos pecados. Nenhum desses deuses conseguia contar uma história verdadeira sobre a criação desta pequena terra. Todos eram incrivelmente deficientes em conhecimentos de geologia e astronomia. Como regra, eram péssimos legisladores ou executivos. Eram inferiores à media dos presidentes americanos.

Esses deuses ordenavam a mais abjeta e degradante obediência. Com o objetivo de agradá-los, o homem deveria colocar sua face na areia. Claro que eram parciais para com os povos que os criaram, e sempre demonstraram sua parcialidade defendendo aqueles povos que roubavam e destruíam os outros, e que estupravam esposas e filhas.

Nada deleitava mais esses deuses do que o massacre dos não-crentes. Nada os irritava mais, até hoje, que saber de alguém que negava sua existência.
 
Poucas nações têm sido tão pobres de ter só um deus. Deuses eram feitos tão facilmente, e a matéria prima custava tão pouco, que geralmente o mercado de deuses estava sempre abarrotado, e os céus fervilhavam com esses fantasmas.

Esses deuses não atuavam só nos céus, mas supunha-se também que interferissem nos negócios dos homens. Eles se metiam em todos e em tudo. Trabalhavam em todos os departamentos. Tudo era considerado como estando sob seu controle imediato. Nada era tão pequeno -- nada tão grande; o pouso de um pardal e o movimento dos planetas eram igualmente controlado por esses industriosos e atentos seres.

Dos seus tronos celestes eles vinham freqüentemente à terra com o propósito de trazer informações ao homem. Tem-se o relato de um que veio no meio de trovões e relâmpagos com o propósito de avisar que não se poderia cozinhar uma criança no leite da sua mãe. Outros deixavam suas casas para informar as mulheres se elas poderiam ou não ter filhos, informar um sacerdote como confeccionar e usar sua batina, e orientar sobre a maneira correta de limpar os intestinos de um pássaro.

Quando as pessoas falhavam em adorar um desses deuses, ou falhavam em alimentar ou vestir seus sacerdotes (o que era praticamente a mesma coisa), ele geralmente os visitava com pestes e fome. Algumas vezes ele permitia que outras nações os levassem à escravidão -- vendessem suas esposas e filhos; mas geralmente ele apreciava mandar sua vingança matando seus primogênitos.

Os sacerdotes sempre fazia corretamente sua obrigação, não só prevendo essas calamidades, mas provando, quando elas aconteceram, elas tinham sido trazidas para o povo porque eles não tinham dado o suficiente ao deus.

Esses deuses diferiam como as nações diferiam; as maiores e mais poderosas nações possuíam os maiores e mais poderosos deuses, enquanto as mais fracas, tinham de se contentar com as escórias dos céus. Todos esses deuses prometiam felicidade nesta e em outra vida a seus escravos, e ameaçavam com o castigo eterno todos aqueles que duvidassem da sua existência, ou suspeitassem que outros deuses fossem superiores; mas negar a existência de todos os deuses era, e é, o crime dos crimes.

Suje suas mãos com sangue humano; lance na lama a boa fama dos inocentes; estrangule uma criança sorridente no colo de sua mãe; engane, arruíne e despreze a bela garota que o ama e que em você confia, e seu caso não está perdido; por todos estes e por todos os outros erros, você poderá ser perdoado. Por estes e todos os outros, a corte de justiça estabelecida pelo evangelho, dará a você um perdão; mas negue a existência desses divinos fantasmas, desses deuses, e a doce e lacrimejante face do perdão se tornará lívida de ódio eterno.

Os portões de ouro do céu se fecham, e você, com uma infinita maldição circundando as orelhas, com o fogo da infâmia nas sobrancelhas, começará sua infinita peregrinação pelos lúgubres caminhos para o inferno -- e a tortura eterna -- um eterno excomungado -- um condenado imortal.

Um desses deuses, e um que exige nosso amor, nossa adoração e admiração, deu a seu povo escolhido, como guia, as seguintes leis de guerra:

"Quando vierdes para uma cidade à noite para lutar contra ela, então proclamais paz nela. E deverá ser que em resposta da paz, e abre-se em vós, então todas as pessoas que moram lá deverão ser vossos tributários, e eles deverão servir a vós. E se não fizerem paz convosco, mas fizerem guerra contra vós, então devereis vencê-los. E quando o Senhor vosso Deus os liberar para vossas mãos, devereis atingir cada homem com a ponta da vossa espada. Mas as mulheres e crianças, e o gado, e tudo o que há na cidade, todo o espólio que sobrar, devereis tomar para vós, e devereis comer o espólio dos vossos inimigos que vosso Deus deixou para vós. Então devereis ir a toda cidade situada distante de vós, que não forem cidades dessas nações. Mas das cidades desses povos que o Senhor vosso Deus deu como herança, não devereis deixar vivo qualquer ser que respira."

É possível para o homem conceber algo mais perfeitamente infame?
Poderá você acreditar que esses comandos tenham sido dados por um ser que não seja infinitamente cruel?

Lembre que o exército que recebeu estas instruções é o invasor. Paz era oferecida com a condição de que os derrotados se tornassem escravos dos invasores; mas se qualquer um tivesse a coragem de defender seus lares, lutar pelo amor de suas esposas e filhos, então, a espada não pouparia ninguém -- nem mesmo um inocente e balbuciante bebê.

E nós somos chamados para adorar esse Deus; a nos ajoelhar e dizer que ele é bom, que é misericordioso, que ele é justo, que ele é amor.

Somos solicitados a sufocar cada nobre sentimento da alma, e esmagar sob nossos pés todas as doces caridades do coração. Se nos recusarmos a idiotizar a nós mesmos -- se nos recusarmos a nos tornar mentirosos -- somos denunciados, odiados, condenados ao ostracismo aqui, e esse mesmo deus nos ameaça com o tormento eterno, a partir do momento em que a morte permitir que seu cruel bastão atinja nossas almas indefesas e nuas. Deixem as pessoas odiar -- nós as educaremos, e nós desprezaremos e desafiaremos esse deus.
 
O livro, chamado Bíblia, é cheio de trechos igualmente horríveis, injustos e atrozes. Este é o livro para ser lido nas escolas para tornar nossos filhos amorosos, gentis e suaves! Este é o livro que querem colocar na nossa constituição como a fonte de toda autoridade e justiça!
 
Estranho! Que ninguém tenha sido perseguido pela igreja por adorar um deus mau, enquanto milhões têm sido perseguido por considerá-lo bom. A igreja ortodoxa jamais perdoará os Universalistas por dizer "Deus é amor". Sempre foi considerado como uma das mais altas evidências de verdade da pura religião insistir que todos os homens, mulheres e crianças mereçam danação eterna. Tem sido sempre heresia dizer que "Deus no final salvará a todos".

Somos solicitados a justificar essas passagens assustadoras, essas leis infames de guerra, porque a Bíblia é a palavra de Deus. Na verdade nunca houve, nem poderá haver, qualquer argumento que prove a inspiração de qualquer um daqueles livros.

Na ausência de evidência positiva, analogia e experiência, argumentos são simplesmente impossíveis, e na melhor das hipóteses, pode-se provocar apenas uma inútil agitação no ar. No momento em que admitimos que o livro é muito sagrado para ser duvidado, ou até mesmo visto racionalmente, tornamo-nos servos mentais.

É infinitamente absurdo supor que um deus que mandasse uma comunicação a seres inteligentes, tornasse um crime para ser punido com chamas eternas, se esses seres usassem sua inteligência para compreender essa comunicação. Se temos o direito de usar nossa razão, nós certamente temos o direito de agir de acordo com ela, e nenhum deus tem o direito de nos punir por tal ação.

A doutrina que afirma que a felicidade futura depende da crença é monstruosa. É a infâmia das infâmias. A noção de que a fé em Cristo será recompensada com a felicidade eterna, enquanto agir de acordo com a razão, observação e experiência merece sofrimento eterno, é tremendamente absurda para refutação, e só poderá ser explicada por uma mistura infeliz de insanidade e ignorância chamada "fé".

 Qual o homem que pensa, poderá acreditar que sangue agrada a um deus? E no entanto, todo o nosso sistema religioso é baseado nessa crença. Os judeus pacificavam Jeová com o sangue de animais, e de acordo com o sistema cristão, o sangue de Cristo amoleceu um pouco o coração de Deus, o que motivou a possível salvação de alguns poucos bem afortunados.

É difícil de acreditar como a mente humana pode crer em terríveis idéias como esta, e como um homem são pode ler a Bíblia e permanecer acreditando na doutrina da inspiração.

Se a Bíblia é falsa ou verdadeira, isto é irrelevante em comparação com a liberdade de pensamento da nossa espécie.

Salvação através da escravidão é inútil. Salvação da escravidão é inestimável.

Até onde o homem creia que a Bíblia é infalível, aquele livro é o mestre. A civilização deste século não é filha da fé, mas da não-crença - o resultado do livre pensamento.

Tudo o que é necessário, e assim me parece, para convencer qualquer homem racional de que a Bíblia é uma invenção puramente humana - uma invenção bárbara - é lê-la.

Leia como você leria qualquer outro livro; pense como você pensaria com outro livro qualquer; tire as vendas da reverência de seus olhos; tire do seu coração o fantasma do medo; tire do trono da sua mente a figura enroscada que é a superstição - e leia a Bíblia Sagrada, e você ficará assustado em supor como seria possível que um ser de infinita sabedoria, bondade e pureza pudesse ser o autor de tamanha ignorância e atrocidade.

Nossos ancestrais, não só possuíam sua fábrica de deuses, mas faziam diabos também. Esses diabos eram geralmente deuses decaídos. Alguns haviam liderado revoltas malsucedidas; alguns tinham sido apanhados suavemente descansando sobre uma nuvem, beijando a esposa do deus dos deuses. Esses demônios eram geralmente simpáticos aos homens. Há em relação a eles um fato maravilhoso: em quase todas as teologias, religiões e mitologias, diabos têm sido muito mais humanos e misericordiosos que deuses.

Nenhum diabo jamais deu ordem a um dos seus generais para assassinar crianças ou estripar o ventre de uma mulher grávida. Todas essas barbaridades eram comum no comportamento dos bons deuses. As pestes eram mandadas pelos mais misericordiosos dos deuses. A fome assustadora, na qual os lábios pálidos de crianças sugavam os seios vazios das mães mortas, era enviada pelos deuses amorosos. Nenhum diabo jamais foi acusado de cometer essas terríveis brutalidades.
 
Um desses deuses, de acordo com a lenda, afogou um mundo inteiro, com exceção de oito pessoas. O jovem, o velho, a bela e desamparada, foram impiedosamente devorados pelas águas.

Esta, a mais terrível tragédia que a imaginação de sacerdotes ignorantes já pôde conceber, foi o ato, não de um diabo, mas de um deus, assim chamado, que homens ignorantes adoram até nossos dias. Que mancha um ato como este deixaria no caráter de um diabo!

Um dos profetas de um desses deuses, tendo em seu poder um rei capturado, fê-lo em pedaços à frente de todo o povo. Já se soube de algum diabo sendo responsável por tal selvageria?

Um desses deuses, segundo se conta, teria dado a seguinte orientação, com relação à escravidão:

"Se comprares um servo judeu, seis anos deverá ele trabalhar, e no sétimo, deverá ele ser liberado por nada. Se ele vier por si só, deverá ir por si só; se ele for casado, deverá sua esposa ir com ele. Se seu mestre lhe tiver oferecido uma esposa, e ela lhe der filhos e filhas, a mulher e os filhos deverão pertencer ao mestre, e neste caso, ele irá só. E se o servo disser: eu amo meu mestre, minha mulher e meus filhos; não irei sozinho. Então o mestre deverá levá-lo aos juizes. Ele deverá então trazê-lo para a porta, e o mestre furará sua orelha com uma sovela; e ele o servirá para sempre".

De acordo com este relato, um homem ganhará a liberdade com a condição de que desista para sempre da sua esposa e filhos. Já se soube de algum diabo que tenha forçado um marido, um pai, a tomar uma decisão tão cruel? Quem poderá adorar um deus como este? Quem poderá se ajoelhar diante de tal monstro? Quem poderá orar para um ente tão maléfico?

Todos os deuses ameaçaram com o sofrimento eterno as almas dos seus inimigos, Algum diabo já fez tão infame ameaça? A mais vil ação de um diabo foi aquela que se fala com relação a Jó e sua família, ação esta realizada sob a expressa permissão de um desses deuses, e para decidir a pequena diferença de opinião entre sua altíssima serenidade e como o caráter de "meu servo Jó".
 
A primeira descrição do diabo que temos é aquela encontrada naquele livro puramente científico chamado Gênesis, e assim temos: "Agora a serpente era mais astuta que qualquer besta no campo que o Senhor Deus havia feito, e ela disse à mulher, sim Deus não disse que não deverás comer o fruto da árvore do jardim? E a mulher disse à serpente nós poderemos comer o fruto da árvore do jardim; mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus tinha dito, não deverás comê-lo e não deverás tocá-lo, senão morrereis. E a serpente disse à mulher, certamente não morrerás. E Deus saberá que se no dia de comeres, teus olhos permanecerão abertos, e serás como deuses, sabendo o bem e o mal. E quando a mulher soube que o fruto era bom como comida, que era agradável aos olhos, e uma árvore desejável para nos fazer sábios, ela tirou o fruto e o comeu, e o deu também a seu marido, e ele o comeu. E o Senhor Deus disse, olha, o homem se tornou um de nós, conhece o bem e o mal; e agora, deixemos colocar fora sua mão e tirar a árvore da vida: e comer, e viver para sempre. E então, o Senhor Deus os expulsou do jardim do Éden, da terra onde estavam. Então ele expulsou o homem, e colocou no leste do Jardim do Éden querubim e uma espada flamejante, que mantiveram o caminho da árvore da vida."

De acordo com esta história, a palavra do diabo se realizou literalmente, Adão e Eva não morreram e se tornaram deuses, sabendo o bem e o mal.

A história conta, entretanto, que os deuses odiavam a educação e conhecimento, exatamente como agora. A igreja ainda guarda com muita fé a perigosa árvore do conhecimento, e tem exercido todo o seu poder com o objetivo de manter a humanidade longe de comer o seu fruto.

Os sacerdotes nunca pararam de repetir a velha falsidade e a velha ameaça: "Não devereis comê-lo nem devereis tocá-lo, senão morrereis." De cada púlpito vem o mesmo grito, nascido do mesmo medo: "Se comerdes, sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal".

Por esta razão, religião odeia a ciência, fé detesta a razão, teologia é inimiga mortal da filosofia, e a igreja, com sua espada flamejante, ainda guarda a árvore do conhecimento, e como seus supostos fundadores, amaldiçoa até as profundezas os pensadores que o comeram e se tornaram como deuses.

Se a história do Gêneses for verdadeira, não deveríamos, na verdade, agradecer à serpente?

Ela foi a primeira professora, a primeira advogada do ensino, a primeira inimiga da ignorância, a primeira a sussurrar nos ouvidos humanos a palavra sagrada liberdade, as criadora da ambição, a autora da modéstia, do questionamento, da dúvida, da investigação, do progresso e da civilização.

Dê-me a tempestade e o vendaval do pensamento e ação, em vez da calma morta da ignorância e da fé! Expulse-me do Éden quando quiser; Mas antes, deixe-me comer do fruto da árvore do conhecimento!
 
Algumas nações tomaram emprestado seus deuses; entre essas, somos obrigados a admitir, a nossa própria. Os judeus, cessando de existir como país, sobrando um deus inútil, nossos antepassados o adotaram, assim como seu diabo ao mesmo tempo. Este deus emprestado permaneceu como fonte de adoração, e este diabo adotado excita a apreensão de nosso povo. Ainda se supõe que ele ainda instala suas armadilhas e fareja com o propósito de flagrar nossas almas incautas, e ele ainda, com algum sucesso, provoca guerras contra nosso Deus.

Para mim é fácil dispor destas idéias a respeito de deuses e diabos. Eles são uma produção artificial. O homem os criou a todos, e sob as mesmas circunstâncias os criaria novamente. O homem não só criou todos esses deuses, como criou também todo o material que os circunda.

Geralmente os deuses eram modelados a partir deles mesmos, e demos a eles mãos, cabeças, pés, olhos, orelhas e órgãos da fala. Cada nação fez seus deuses falar apenas sua própria língua.

Da mesma forma, colocou na sua boca os mesmos enganos em história, astronomia e geografia, e em todos os assuntos que aqueles povos conheciam. Nenhum deus era mais avançado que os povos que os criaram.

Os negros representavam seus deuses de cor escura e cabelos crespos. Os dos mongóis tinham os olhos amendoados e a mesma tonalidade da pela. Os judeus não se permitiam fazer pintura dos seus; do contrário, veríamos um deus com face oval, e um nariz aquilino. Zeus era um perfeito grego. E Jove, parecia até um membro do Senado romano. Os deuses egípcios tinham o mesmo aspecto paciente e o rosto plácido que tinham as simpáticas pessoas que os inventaram. Os deuses dos nórdicos eram representados invariavelmente usando roupas de pele, e bem agasalhados; os dos trópicos eram representados nus. Os deuses da Índia eram freqüentemente encontrados sobre elefantes; os deuses de habitantes de ilhas eram sempre bons nadadores, e os deuses dos habitantes do ártico gostavam de óleo de baleia.

Quase todos os povos pintaram ou esculpiram representações dos seus deuses, e as representações eram, pelas classes mais baixas, tratadas como deuses reais, e para a imagem dos seus deuses eles dirigiam orações e sacrifícios.

Em alguns países, até nos nossos dias, se um povo, após longas orações, não tinham seus desejos atendidos, eles jogavam suas imagens fora, como deuses inúteis, ou os detratavam da maneira mais reprovável, lançando sobre eles golpes e maldições:

 "Como podes agora, espírito cão", eles diziam, "nós te alojamos num templo magnífico, adornamo-te com ouro, oferecemos a ti incenso, alimentamos a ti com nossas melhores comidas; e depois de toda esta dedicação, recusares a atender nosso pedido?"

Depois derrubavam o deus e o jogavam fora. Se, eventualmente depois eles obtinham o que desejavam, então, com uma grande cerimônia, eles o apanhavam de volta, lavavam-no e limpavam-no, colocavam-no de volta no seu trono, onde eles se desculpavam pelo que haviam feito.

"Na verdade" eles diziam, "nós somos muito maus, e tu és infinito na tua bondade. Mas o que foi feito está feito. Não pensemos mais nisto. Se esqueceres o que aconteceu, nós te devolveremos o brilho novamente."

O homem nunca sofreu falta de deuses. Ele adorava quase tudo, inclusive os seres mais repugnantes. Ele tem adorado o fogo, a terra, o ar, a água, a luz, estrelas, e por centenas de anos, ele se tem curvado diante de serpentes. Povos selvagens têm feito sacrifício para objetos que eles recebiam dos civilizados. Os Todas adoravam um chocalho de vaca. Os Kotas adoravam duas placas de prata, que eles consideravam como sendo marido e mulher.

O homem, sendo sempre fisicamente superior à mulher, torna compreensível por que a maioria dos deuses são do sexo masculino. Se fosse o contrário, o responsável pelas forças da natureza seria mulher e, em vez de representados com armas masculinas, seriam adornados com colares, vestidos e usariam cabelos longos.

Nada tem sido mais claro que o fato de todas as nações terem dado a seu deus suas próprias características, e que cada indivíduo dá a seu deus suas próprias peculiaridades.

O homem não tem qualquer idéia além daquelas sugeridas pelo seu ambiente. Ele não pode conceber nada completamente diferente de tudo o que ele vê e sente. Ele pode exagerar, aumentar, diminuir, combinar, separar, melhorar, multiplicar, embelezar, deformar e comparar o que ele vê, sente e ouve, e tudo de que ele toma conhecimento através de seus órgãos dos sentidos; mas ele não pode criar.

Vendo exposição de força ele pode dizer, onipotente. Tendo vivido, ele pode dizer, imortalidade. Sabendo algo sobre o tempo, ele pode dizer, eternidade. Concebendo algo de inteligente, ele diz, Deus. Vendo exibições de maldade, ele diz, diabo. Um pouco de felicidade caindo nas suas vidas, e ele diz, céu. Dor, sob suas mais diferentes formas, ao experimentar ele diz, inferno.

Na verdade todas estas idéias têm um fundamento em fatos, e só um fundamento. Tudo se limita num exagero, diminuição, combinação, separação, combinação, separação, deformação, embelezamento, melhoramento, ou multiplicação da realidade, de modo que a construção não é nada mais que o agrupamento incongruente de tudo aquilo que é percebido pelos órgãos dos sentidos.

É como se déssemos a um leão as asas de uma águia, os chifres de um búfalo, a cauda de um cavalo, a sacola de um canguru, o tronco de um elefante. Nós então, criamos na imaginação um monstro impossível, e na verdade, as diferentes partes desse monstro de fato existem. Assim é com todos os deuses que o homem fez.

Além da natureza, o homem não pode ir nem em pensamento - ou acima da natureza ele não pode ir - abaixo da natureza ele não pode descer.

O homem, na sua ignorância, supõe que todos os fenômenos são produzidos por uma força inteligente, e com direta referência a ele. Preservar relações amigáveis com essas forças, sempre foi e tem sido o objetivo de todas as religiões.

O homem se ajoelha de medo e implora ajuda, ou faz isso em gratidão a algum favor que ele supõe que lhe foi dado. Ele procura, através da súplica, acalmar algum ser que, por alguma razão, crê ele, está enraivecido. Os relâmpagos e trovões o assustam. Na presença de um vulcão ele se ajoelha. As grandes florestas, cheias de animais selvagens, com serpentes enormes enroscando-se nas suas profundezas, o mar profundo, os cometas, os eclipses sinistros, a assustadora calma das estrelas, e mais que tudo, a perpétua presença da morte, o convenceram de que o homem era o passatempo e a presa de forças malignas.

As estranhas e assustadoras doenças que o afligiam, os calafrios e a febre, as contrações da epilepsia, as paralisias súbitas, a escuridão da noite, e os sonhos terríveis, fantásticos e selvagens que enchem sua mente o convenceram de que ele era assombrado por numerosos espíritos e diabos.

Por alguma razão ele supôs que alguns desses espíritos diferiam em poder - que nem todos eram igualmente malevolentes - que os mais elevados controlavam os mais baixos, e que nossa sobrevivência dependia de ganhar assistência dos mais fortes. Por esta razão, ele decidia rezar, agradar, adorar e oferecer sacrifícios. Estas idéias parecem ser quase universais no homem incivilizado.

Por muito tempos todos os povos supunham que os loucos e doentes eram possuídos por espíritos maus. Por muitos anos a prática da medicina consistia em expulsar esses demônios. Usualmente o sacerdote procurava fazer o máximo de barulho possível. Eles sopravam trombetas, batiam em tambores, agitavam chocalhos, e emitiam gritos terríveis. Se os remédios ruidosos falhassem, eles imploravam pela ajuda de outros espíritos mais poderoso.

Pacificar os espíritos era considerado de fundamental importância. Os pobres bárbaros, sabendo que os homens poderiam ser dominados por venenos, davam aos espíritos aquelas substâncias que consideravam de maior valor. Com o coração partido eles entregavam aos espíritos o sangue de seus filhos. Era para eles impossível conceber um deus totalmente diferentes deles próprios e eles acreditavam que essas forças do ar poderiam ser afetadas um pouco pela visão de tão profunda tristeza.

Foi com os bárbaros assim como com os civilizados agora -que uma classe vivia através ma mercantilização do medo dos outros. Certas pessoas se colocavam na função de acalmar os deuses, e a instruir os outros sobre seus deveres para com esses seres invisíveis. Isto foi o início dos sacerdotes. Eles fingiam se colocar entre a crueldade dos deuses e o desamparo do homem. Eram os advogados humanos na corte do céu. Eles carregavam ao mundo invisível a bandeira da trégua, do protesto, do requerimento. Eles voltavam com a autoridade, o comando e a força.

 Os homens se ajoelhavam diante de seus próprios servos, e o sacerdote, obtendo vantagem das suas ações inspiradas por sua suposta influência com os deuses, fazia dos seu semelhante um hipócrita rastejante e um escravo.

Até Cristo, um suposto filho de um deus, ensinava que as pessoas eram possuídas por demônios, e freqüentemente, de acordo com os relatos, dava provas de sua divina origem e missão, assustando multidões de demônios para fora dos seus infelizes concidadãos.

Expulsar demônios era a sua principal função, e os demônios expulsos geralmente aproveitavam a situação para reconhecê-lo como verdadeiro messias; o que não eram muito conveniente a eles, mas que o beneficiava.

As pessoas religiosas sempre acreditavam que o testemunhos desses diabos eram perfeitamente conclusivos, e os escritores do Novo Testamento citavam as palavras desses sinistros personagem das trevas com muita satisfação.

O fato de Cristo ter resistido à tentação do demônio era considerado conclusiva evidência de que ele era apoiado por algum deus, ou algum ser superior aos homens.  Mateus cita a tentativa de que o diabo de tentar o suposto filho de Deus; e isto sempre maravilhou os cristãos, de como a tentação foi tão heroicamente e nobremente repelida. A citação da qual me refiro é a seguinte:

"Então Jesus foi conduzido pelo espírito para a selva para ser tentado pelo diabo. E quando o tentador chegou até ele, ele disse: 'Se és o filho de Deus, transforma estas pedras em pão'. Mas ele respondeu dizendo: 'Está escrito: o homem não pode viver só de pão, mas de todas as palavras que vêm da boca de Deus'. Então o diabo o conduziu à cidade sagrada, foram até o pináculo do tempo e disse: 'Se és o filho de Deus, joga-te lá em baixo; por que está escrito, Ele dará condições aos anjos para te proteger antes de atingires tua perna contra qualquer pedra.' Jesus então disse a ele: 'Está escrito também, não deverás tentar o senhor teu Deus.' Então o diabo o conduziu até uma montanha alta e ofereceu a ele todos os reinos do mundo a toda a sua glória, e disse a ele :'Tudo isto te darei se te atirares e me adorares.'

Os cristãos afirmam agora que Cristo era um Deus. Se fosse um Deus, é claro que o diabo saberia, e de acordo com essa história, o diabo levou o Deus onipotente e o colocou no pináculo do templo e tentou induzi-lo a se atirar lá de cima contra o chão. Falhando nisso, ele levou o criador e dono do universo para uma elevada montanha e ofereceu a Ele o mundo - seu grão de areia - se Ele - o Deus de todos os mundos, se jogasse e o adorasse, um pobre diabo, que não tinha onde cair morto!

Seria possível que o diabo fosse tão idiota?

Poderíamos dar qualquer crédito a esse deus por não cair numa armadilha tão ridícula? Pense nisto! O diabo - o príncipe dos trapaceiros - o rei da astúcia - o mestre da manha, tentando subornar um Deus com um grão de areia que pertencia a Ele mesmo!

Há algo na literatura religiosa do mundo mais totalmente absurdo que isto?

Esses demônios, de acordo com a Bíblia, eram de vários tipos - alguns podiam ouvir e ver, outros eram surdos e mudos. Nem todos podiam ser expulsos da mesma forma.

Os espíritos surdos e mudos eram um tanto difíceis de lidar. São Mateus fala de um senhor que levou seu filho a Cristo. O menino, dizia-se, era possesso por um espírito mudo, sobre os quais os discípulos não tinham qualquer poder.

 "Jesus disse ao espírito: "Tu, espírito surdo e mudo, eu te ordeno a sair e não entrar mais nele'."

Então, o espírito surdo (ouvindo o que ele disse) gritou (sendo mudo), e imediatamente se retirou.

A facilidade com a qual Cristo lidou com esse espírito maravilhou os discípulos e eles lhe perguntaram reservadamente por que eles não puderam expulsar aqueles espíritos.

E ele respondeu: "Estas coisas podem se fazer com nada mais que oração e jejum".

Haverá no mundo um cristão que acredite nesta história se fosse descrita em qualquer outro livro? A resposta é que essas pessoas piedosas fecharam sua razão ao abrir suas Bíblias.
 
Essa crença em forças de deuses e diabos tem origem no fato de que o homem é circundado por fenômenos que ele considera bons ou ruins. Fenômenos que afetavam positivamente os homens eram considerados como bons espíritos.

Fenômenos considerados desagradáveis, eram considerados maus espíritos. Admitiam-se que todos os fenômenos fossem provocados por espíritos. Os espíritos se dividiam de acordo com os fenômenos e os fenômenos eram bons ou maus quando afetavam o homem. Bons espíritos provocavam os bons fenômenos, e maus espíritos, o mal - então a idéia de diabo se tornou tão universal como a idéia de um deus.

Muitos escritores sustentam que, uma idéia, sendo universal, tem que ser verdadeira; que todas as idéias universais são inatas, e que idéias inatas não podem ser falsas. Se é verdade que uma idéia, sendo universal, prova que é inata, e se é verdade que uma idéia, sendo inata, prova que é verdadeira, então, os que acreditam numa idéia inata devem admitir que a idéia de um deus superior à natureza , e num diabo superior à natureza é exatamente o mesmo e que a existência desses diabos é tão evidente quanto a existência desse deus.

A verdade é que um fenômeno de um deus tido como bom, e um diabo tido como mau. E seria tão natural e lógico supor que um diabo causasse felicidade quanto supor um deus que trouxesse miséria. Conseqüentemente, se um Deus, inteligente, infinito e supremo é o autor imediato de todos os fenômenos, seria difícil determinar se tal criatura é amiga ou inimiga do homem.

Se todos os fenômenos fossem bons, poderíamos afirmar que foram produzidos por um ser perfeitamente benevolente. Se fossem todos ruins, poderíamos dizer que foram produzidos por forças maléficas; mas como os fenômenos são considerados como afetam o homem, bons ou maus, eles deverão ser produzidos por forças antagônicas de diferentes espíritos; por um que algumas vezes atuam com bondade e outras vezes com malícia; ou todos os fenômenos são produzidos pela necessidade, sem referência a suas ações sobre o homem.

A tola doutrina de que todos os fenômenos podem ser traçados pela interferência de espíritos bons ou ruins, tem sido, e ainda é, quase universal. Que a maioria das pessoas ainda crêem em algum espírito podem alterar a ordem natural dos fatos, é provado pelo fato de que quase todos recorrem à oração.

Milhares estão a cada momento implorando para que alguma força superior interceda a seu favor. Alguns querem que sua saúde se restabeleça; alguns pedem para que os entes distantes e ausentes sejam supervisionados e protegidos, alguns pedem riquezas, alguns imploram por chuva, alguns querem que doenças estacionem, alguns imploram em vão por comida, alguns pedem para reviver, uns poucos pedem mais sabedoria, e de vez em quando um pede para que seu deus faça o que achar melhor.

Milhares pedem para ser protegidos pelo diabo; alguns, como Davi, pedem vingança; e outros pedem a Deus para não os deixar cair em tentação. Todas estas orações se baseiam na crença, na idéia ,de que uma força, não só pode como provavelmente irá alterar a ordem dos fatos da natureza.

 Esta crença está presente em praticamente todas as tribos e nações. Todos os livros sagrados estão cheios de descrições dessas interferências, e nossa Bíblia não é exceção a esta regra.

Se acreditarmos numa força superior à natureza, é perfeitamente natural que admitamos que esta força pode e irá produzir interferências nos acontecimentos da natureza.

Se não há esta interferência, que função poderá ter esta força? As escrituras nos dão as mais maravilhosas descrições de divina interferência: Animais falam com homens; fontes brotam de ossos secos; o sol e a lua param no céu para que General Josué tenha mais tempo para assassinar; os ponteiros de um relógio de sol retornam dez graus para convencer um rei insignificante de um povo bárbaro, que ele não morrerá cozinhado; fogo se recusa a arder; água se recusa teimosamente a seguir o seu caminho, mas ergue-se como uma barreira; grãos de areia viram piolhos; bengalas, para satisfazer um truque, curvam-se e se transformam em serpentes, e então, engolem umas as outras, gritando e rindo da força de gravidade, sobem montes e seguem andarilhos por pura diversão; profecias se tornam mais fáceis que a história; os filhos de deuses se apaixonam por garotas do mundo; mulheres se transformam em estátuas de sal com o propósito de manter um evento memorável fresco na mente das pessoas; excelentes artigos de enxofre são importados do céu livre de taxas; roupas se recusam a sair dos seus donos por quarenta anos; pássaros mantêm profetas andarilhos livres de despesas de restaurante e alimentos; ursos despedaçam crianças por terem zombado de um homem calvo; força muscular depende do tamanho da cabeleira de um homem; mortos revivem apenas para fazer gozação dos seus inimigos e herdeiros; bruxas e feiticeiras conversam livremente com as almas das pessoas mortas, e Deus em pessoa se torna um pedreiro e escultor, depois de ter sido um alfaiate e costureiro.

O véu entre a terra e o céu estava sempre rasgado ou suspenso. A sombra deste pequeno mundo, a radiância do céu, e o fulgor do inferno se misturaram e diminuíram até que o homem não soubesse mais em que país habitava. O homem morava num mundo irreal. Ele confundia suas idéias, seus sonhos, com coisas reais. Seus medos se transformaram em monstros terríveis e maliciosos. Ele vivia no meio de monstros e fadas, ninfas e donzelas, duendes e fantasmas, bruxas e magos, fantasmas e assombrações, deuses e diabos.

As profundezas escuras e as trevas eram preenchidas com presas e asas - com bicos e patas - com olhares sinistros e bocas debochadas - com a malícia da deformidade e a astúcia do ódio, e com todas as formas viscosas que o medo pode desenhar e pintar sobre a tela sombreada da escuridão.

Isto é suficiente para tornar alguém quase insano com piedade para pensar sobre tudo o que o homem, na longa noite, tem sofrido; das torturas que sofreu, circundado, supunha, por forças malignas e agarrado por fantasmas cruéis.

Não surpreende que se ajoelhasse trêmulo sobre os altares por ele construídos e os molhasse com seu próprio sangue.

Não surpreende que ele implorasse a sacerdotes ignorantes e mágicos desavergonhados, por ajuda.

Não surpreende que ele rastejasse trôpego nas empoeiradas portas dos templos, e lá dentro, na insanidade e desespero, implorasse a deuses surdos que atendessem suas amargas súplicas de agonia e desespero.

O selvagem, quando emerge do estado de barbarismo, gradualmente perde a fé nos seus ídolos de madeira e de pedra, e em seu lugar coloca uma multidão de espíritos. À medida que ele avança em conhecimento, ele descarta sua trupe de espíritos, e em seu lugar coloca um único, tido como supremo e infinito.

Supondo que seu espírito é superior à natureza, ele lhe oferece adoração e submissão em troca de proteção. Por fim, concluindo que ele não obtém qualquer ajuda da sua divindade - descobrindo que toda procura pela necessidade absoluta termina sempre em fracasso - percebendo que o homem, sob nenhuma condição, pode conceber o incondicional - ele começa a investigar os fatos que o circundam, e só contar com ele mesmo.

As pessoas estão começando a pensar, a raciocinar e a investigar. Gradualmente, dolorosamente, mas certamente, os deuses vão sendo expulsos da terra. Só muito raramente são eles, por pessoas muito religiosas, supostos a interferir nos afazeres do homem.

Em quase todos os assuntos, nós somos levados a nos supor que somos livres. Desde a invenção das locomotivas a vapor e as estradas de ferro, de modo que os produtos de todos os países puderam ser intercambiáveis, os deuses têm perdido a habilidade de produzir a fome.

Aqui e ali eles assassinam uma criança, por que eles são idolatrados pelos pais. Como regra eles têm desistido de causar acidentes em ferrovias, explodir caldeiras, pipocar lampiões de querosene. Cólera, febre amarela e varíola são ainda consideradas armas dos deuses; mas varicela, sarna e peste são agora atribuídas a causas naturais. De modo geral, os deuses têm parado de afogar criancinhas, exceto como punição de não guardar os sábados.

Eles ainda prestam alguma atenção nos afazeres dos reis, homens de inteligência ou de grandes fortunas; mas pessoas comuns são abandonadas à própria sorte. Em guerras entre grandes nações os deuses ainda interferem; mas em brigas comuns, o melhor, junto com um juiz honesto é quase sempre o vencedor.
 
A Igreja não pode abandonar a doutrina da divina providência. Desistir dela seria desistir de tudo. A Igreja tem de insistir que a oração é atendida - que alguma força superior à natureza ouve e atende o pedido do sincero humilde cristão, e que esta misteriosa força, de algum modo atua sobre tudo.
 
Um clérigo devoto procura toda oportunidade de impressionar a mente de seu filho de que Deus cuida de toda criatura; que um pardal atrai sua atenção e que seu amor atua sobre toda a sua criação. Acontecendo dele ver, certo dia, uma garça procurando por comida, ele mostra ao filho o exemplo de um animal perfeitamente adaptado para conseguir sua sobrevivência.

"Veja", disse ele, "como essas pernas são programadas para a caça! que corpo esbelto ela tem! veja com que elegância ela introduz e retira suas patas da água! ela não provoca nenhuma agitação. Ela é capaz de abordar o peixe sem ser notada".
 
"Meu filho," disse ele, "é impossível ver este animal sem reconhecer a criação, assim como a bondade de Deus, dando os meios de sobrevivência."
 
"Sim", respondeu o menino, "eu vejo a bondade de Deus desde que se veja o lado da garça; mas, pai, você não acha esta regra um tanto desvantajosa para o peixe?"

Até o mais moderno dos religiosos, mesmo duvidando de grande parte das supostas interferências divinas no nosso mundo atual, ainda crê que no início, algum deus fez as leis que governam o universo.

Ele acredita que, em conseqüência dessas leis o homem pode levantar um peso maior com ou sem uma alavanca; que esse deus fez as leis e estabeleceu de certa forma a ordem das coisas, que duas coisas não podem ocupar o mesmo espaço simultaneamente; que um corpo, sendo posto em movimento, mantém-se em movimento até ser parado; que há uma maior distância ao redor que cruzando um círculo; que um quadrado perfeito tem quatro lados idênticos, em vez de cinco ou seis.
 
Ele insiste que foi necessária a interferência divina para que um todo seja maior que suas partes, e que se não fosse pela providência divina, duas vezes um poderia ser maior que duas vezes dois, e que bastões e cordas teriam a mesma forma.

Como o antigo deus escocês, ele agradece a Deus que o Domingo fique no fim e não no meio da semana, e que a morte aconteça só no fim, e não no princípio da vida, dando a nós, conseqüentemente, tempo suficiente para que nos preparemos para o evento solene.

Essas pessoas vêem interferência divina por toda a parte.

Eles insistem que o universo foi criado, e que as adaptações que vemos na natureza seriam puramente aparentes. Eles nos mostram o brilho do sol, as flores, as chuvas de abril, e afirmam que tudo o que há de belo e útil no mundo.

Será que passa por suas mentes que o câncer seria tão belo como uma rosa? Que eles têm satisfação de chamar a adaptação de meios para atingir um fim, é tão aparente no câncer que nas chuvas de abril?

Como é belo o processo de digestão! Que engenhoso método o de o sangue ser envenenado de tal forma que possa alimentar um câncer! Por que meio maravilhoso todo o organismo humano seja consumido para alimentar um câncer! Veja por quais métodos engenhosos ele se alimenta às custas de um organismo trêmulo! Veja como ele rápida e eficientemente, cresce! Que belas cores ele apresenta! Por que maravilhosos mecanismos ele se enraíza e atinge os mais escondidos nervos dolorosos para sustentar sua vida!

Veja através do microscópio que ele é um milagre de ordem e beleza! Nem toda a ingenuidade humana pode deter seu crescimento. Pense na quantidade de pensamento que teve de ser produzido para inventar um meio de a vida de alguém pudesse ser consumida para produzir um câncer. É possível ver isto e supor que exista uma administração no universo, e que o inventor desse maravilhoso câncer seja uma força infinitamente poderosa, engenhosa e boa?

Informam a nós que o universo foi planejado e criado, e que é absurdo imaginar que a matéria tenha existido por toda a eternidade, mas que esta idéia é perfeitamente aceitável para um deus.

Se um deus criou o universo, então deverá ter havido um tempo em que ele o começou a criar. Antes disto deverá ter existido uma eternidade, na qual nada havia - absolutamente nada - exceto o suposto deus. De acordo com esta teoria, o deus levou uma eternidade, por assim dizer, num vácuo infinito e na mais completa ociosidade.

Admitindo que um deus criou o universo, a questão que se levanta é, de que ele o criou? Certamente ele não foi feito do nada. Nada sendo considerado matéria prima é muito falho. Conclui-se que deus construiu o universo dele mesmo, sendo ele a única existência.

O universo é material, e se ele foi feito por um deus, o deus tinha de ser também material, e se ele foi feito de um deus, o deus tinha de ser material. Com este pensamento em mente Anaxímedes de Mileto disse: "Criação é a decomposição do infinito."

Está demonstrado que a terra cairia no sol só pelo fato de que ela é atraída por outros mundos ainda mais além, e assim sucessivamente sem fim. Isto prova que o universo não tem fim. Se um universo infinito foi feito de um deus infinito, o que sobrou então do deus?

A idéia de uma divindade criativa vem sendo abandonada gradualmente, e a maioria das mentes verdadeiramente científicas admitem que matéria tenha existido por toda a eternidade. Ela é indestrutível, e o indestrutível não pode ter sido criado. Esta é a glória do nosso século ter sido demonstrada a indestrutibilidade e existência eterna da força.

Nem matéria nem força pode ser criada ou eliminada. Força não pode existir independentemente da matéria. Matéria só existe em conjunto com força, e conseqüentemente, uma força independentemente da matéria, e superior à natureza, é uma impossibilidade demonstrada.
 
Força, então, deve ter existido por toda a eternidade, e não pode ter sido criada. Matéria, em suas infinitas formas, de terra sem vida aos olhos da pessoa que amamos, e força, em todas as suas manifestações, de movimento simples até grandes pensamentos, negam a criação e desafiam controle.

Pensamento é uma forma de força. Nós andamos com a mesma força com que pensamos. O homem é um organismo que transforma muitas formas de força em pensamento-força. O homem é uma máquina na qual se coloca o que chamamos comida, e produz o que chamamos pensamento. Pense na incrível modificação que permitiu com que pão fosse transformado na tragédia de Hamlet!

Um deus deveria não só ser material, mas deveria ser um organismo capaz de transformar outras formas de força em pensamento. Isto é o que ocorre com a alimentação. Portanto, se um deus pensa, ele deve se alimentar, ou seja, ele deverá possuir formas de suprir a força para pensar. É impossível supor um ser que dá eternamente força à matéria, e não tem qualquer meio de suprir a força doada.

Se nem matéria nem força foram criadas, que evidência temos nós de uma força superior à natureza? Os teólogos irão provavelmente responder: "Nós temos leis e ordem, causa e efeito, e além disso, matéria não se colocaria por si só em movimento."

Suponhamos, para fins de argumento, que não há um ser superior à natureza, e que matéria e força tenham existido eternamente. Agora suponha que dois átomos se chocando, haverá um efeito? Sim. Suponhamos que eles venham em direções opostas e com igual força, eles sejam parados, para dizer o mínimo. Isto seria um efeito. Se é assim, então nós temos força, matéria e efeito sem um ser superior à natureza.

Agora suponha que dois átomos, como os dois primeiros, venham juntos nas mesmas circunstâncias, não seria o efeito exatamente o mesmo? Sim. Mesmas causas produzindo os mesmos efeitos é o que chamamos lei e ordem. Então, temos matéria, força, efeito, lei e ordem sem um ser superior à natureza. Agora sabemos que todo efeito tem de ter uma causa e que toda causa tem de ter um efeito.

Os átomos chegando juntos, produzem um efeito, e como todo efeito tem que ter uma causa, o efeito produzido pela colisão de átomos, devem ter sido provocado por algo. Então temos matéria, força, lei, ordem, causa e efeito sem um ser superior à natureza. Nada resta para o sobrenatural além de espaço vazio. Seu trono se torna desocupado, e sua realeza fica sem matéria, sem força, sem lei, sem causa e sem efeito.

Mas o que coloca toda esta matéria em movimento? Se matéria e força têm existido por toda a eternidade, então, matéria deve ter estado sempre em movimento, então não haverá qualquer força sem movimento. Força é sempre ativa e não há, nem poderá haver parada. Se, então, força e matéria existem desde sempre, então assim também é o movimento. No universo não há sequer um átomo em repouso.

Uma divindade fora da natureza existe no nada, e não é nada. A natureza abraça com seus infinitos braços toda a matéria e toda a força. Aquilo que está além do seu alcance é destituído de ambos, e dificilmente mereceria adoração mesmo de um homem.
 
Só há uma maneira de demonstrar a existência de força independente ou superior à natureza, e seria pela quebra, por um só instante, da continuidade da causa e efeito. Tire da infinita cadeia da existência um único elo; Pare por um momento a grande procissão e você terá ido além de todas as contradições de que a natureza tem um mestre. Mude os fatos, só por um segundo, que matéria atrai matéria, e um deus aparecerá.
 
O mais rude selvagem sempre soube deste fato, e por esta razão, sempre exigiu a presença de um milagre. O fundador de uma religião sempre teve de ser capaz de transformar água em vinho - curar com uma palavra o cego e o aleijado, ressuscitar com um toque, um morto.

Era necessário para ele demonstrar aos seus bárbaros discípulos, que ele era superior à natureza. Em tempos de ignorância, isto era fácil de fazer. A credulidade dos selvagens era quase infinita. Para ele o maravilhoso era o belo, o misterioso era sublime. Conseqüentemente, em toda religião tem na sua fundação um milagre - ou seja, uma violação da natureza - ou em outras palavras, uma falsificação.

Ninguém, em toda a história da humanidade, tentou substanciar a verdade com um milagre. A verdade exige a assistência de um milagre. Nada além da falsidade tem testado a si mesmo por sinais e o maravilhoso. Nenhum milagre jamais foi realizado, e nenhum homem são nunca pensou ter realizado um, e até que um seja feito, não há qualquer evidência da existência de uma força superior à natureza.

A Igreja quer que acreditemos. Deixemos que a Igreja ou um dos santos intelectuais façam um milagre, e nós acreditaremos. Somos informados de que a natureza tem um superior. Deixemos este superior, por um instante que seja, controlar a natureza, e nós admitiremos a verdade no que a Igreja diz.

Nós já ouvimos falar o suficiente. Nós já ouvimos todos estes sermões aborrecidos e enfadonhos que queríamos ouvir. Já lemos sua Bíblia e as obras das suas melhores mentes. Já ouvimos suas orações, seus lamentos solenes, seus reverentes améns. Isto tudo para menos que nada.

Queremos um fato. Nós imploramos nas portas de suas Igrejas por só um pequeno fato. Nós passamos nossos chapéus por seus bancos e por seus púlpitos para suplicar por só um fato. Nós sabemos tudo sobre seus milagres maravilhosos e suas antigas maravilhas. Nós queremos um fato atual. Pedimos só um. Dê-nos um fato, por caridade!

Seus milagres são muito antigos. Suas testemunhas já estão mortas há dois mil anos. Sua reputação de "verdade e veracidade", entre os seus vizinhos é totalmente desconhecida entre nós. Dêem a nós um novo milagre e o comprovem com testemunhas que tenham o hábito de ainda viverem neste mundo.

Não nos enviem a Jericó para ouvir as trombetas curvas, nem nos coloquem no fogo com Sadrack, Meseck ou Abdenego. Não nos obriguem a navegar com o capitão Jonas nem jantar com Sr. Ezequiel. Não há qualquer utilidade em nos fazer caçar raposas com Sansão. Nós já perdemos todo o interesse naquele discurso tão eloqüentemente proferido pelo jumento inspirado de Balaam. É pior que inútil nos mostrar peixes com moedas na boca ou chamar nossas atenções para ver multidões matando a fome com cinco biscoitos e duas sardinhas. Nós exigimos um novo milagre e agora. Deixem a Igreja produzir apenas um, ou calar-se para sempre.

Nos velhos tempos a Igreja, violando as leis da natureza, provou a existência do seu Deus. Naquela época os milagres eram feitos com a mais incrível facilidade. Eles eram tão comuns que a Igreja ordenou seus sacerdotes a parar. E agora, esta mesma Igreja - tendo as pessoas encontrado um pouco de bom senso - admite, não só que ela não pode fazer milagres, mas insiste que a ausência de milagres, a inexorável marcha entre causa e efeito, prova a existência de uma força superior à natureza. O fato é, entretanto, que a inexorável cadeia de causa e efeito demonstra exatamente o contrário.

Sir William Hamilton, um dos pilares da moderna teologia, discutindo estas questões, usa a seguinte linguagem:

"O fenômeno da matéria, considerado independentemente, muito longe de garantir a qualquer interferência sobre a existência de um Deus, iria pelo contrário, firmar até um argumento pela sua negação. O fenômeno do mundo material é sujeito a leis imutáveis; é produzido e reproduzido pelas mesmas sucessões invariáveis, e manifesta apenas a força cega da necessidade mecânica".

A natureza nada mais é que uma série infinita de causas eficientes. Ela não pode criar, mas transformar eternamente. Não há um começo e não poderá haver um fim. As melhores mentes, mesmo no mundo religioso, admitem que, na natureza material não há nada do que eles gostam de chamar um deus.

Eles encontram sua evidência no fenômeno que chamamos inteligência, e inocentemente afirmam que inteligência está acima, e conseqüentemente, oposta à natureza; eles insistem que o homem, pelo menos, é uma criação especial; e que ele tem em algum lugar do cérebro, uma chama divina, uma pequena porção da "Grande causa primordial".

Eles dizem que matéria não pode causar pensamento; mas que pensamento produz matéria. Eles nos dizem que o homem tem inteligência, e portanto deve existir uma inteligência superior à sua. E por que não dizer que, Deus tendo inteligência, haveria uma inteligência superior à sua? Até onde sabemos, não há inteligência separado da matéria. Não podemos conceber um pensamento, exceto aquele produzido por um cérebro.

A ciência através da qual eles demonstram uma inteligência impossível, e uma força incompreensível, é chamada metafísica ou teologia. Os teólogos admitem que os fenômenos da matéria tendem, pelo menos a provar a não existência de um ser superior à natureza por que, em tais fenômenos, nós vemos nada além de uma eterna cadeia de causas eficientes - nada além de forças de necessidade mecânica. Eles então apelam para o que eles denominam os fenômenos da mente para estabelecer esta força superior.

O problema é que nos fenômenos da mente nós encontramos a mesma cadeia eterna de causas eficientes; a mesma necessidade mecânica. Todo pensamento tem de ter tido uma causa eficiente. Todo motivo, todo desejo, todo medo, toda esperança, todo sonho, tem de ser necessariamente produzido. Não há qualquer espaço na mente humana para a providência ou acaso.

Os fatos e forças que governam a mente são tão absolutas quanto aquelas que governam o movimento dos planetas. Um poema é produzido por forças da natureza, e é tão necessariamente e naturalmente produzido como mares e montanhas. Você procurará em vão um pensamento na mente humana sem uma causa eficiente. Toda operação mental é o resultado necessário de certos fatos e condições.

Fenômenos mentais são considerados mais complicados que aqueles de matéria, e conseqüentemente mais misteriosos. Sendo mais misteriosos, eles são considerados as melhores evidências da existência de um deus. Ninguém supõe um deus do simples, do conhecido, do que é compreendido, mas do complexo, do desconhecido, do incompreensível. Nossa ignorância é Deus; o que sabemos é ciência.
 
Quando abandonamos a doutrina de que um ser infinito criou a matéria e força, e decretamos um código de leis para seu governo, a idéia da interferência estará perdida. O real sacerdote será, não o porta-voz de um suposto deus, mas um intérprete da natureza.

A partir daí a Igreja deixará de existir. As velas se consumirão sobre os altares empoeirados; o fungo comerá o tecido de veludo dos púlpitos e dos bancos; a Bíblia tomará seu lugar junto com os Sastras, Puranas, Vedas, Eddas, o Corão e os livros velhos da degradante fé desaparecerão das mentes dos homens.
 
"Mas", dizem os religiosos, "você não pode explicar tudo; não pode entender tudo; e o que você pode entender, é o meu Deus."

Estamos explicando mais a cada dia; Estamos entendendo mais a cada dia; conseqüentemente, seu deus está ficando a cada dia, menor.
 
Sem duvidar, os religiosos insistem que nada pode existir sem uma causa; exceto a causa, e que esta causa sem causa é Deus.

Para isto nós novamente respondemos: Toda causa tem de produzir um efeito, porquanto até que produza o efeito, não é uma causa. Todo efeito tem, por seu turno, tornar-se uma causa. Portanto, na natureza das coisas, não poderá haver uma última causa, pela razão de que a chamada última causa necessariamente produziria um efeito, e este efeito necessariamente se tornaria uma causa. o contrário destas proposições tem de ser verdadeiro. Todo efeito tem de ter tido uma causa, e toda causa tem de ter um efeito. Portanto, não poderá existir uma primeira causa. Uma primeira causa é tão impossível quanto um último efeito.

Além do Universo não há nada e dentro do Universo o sobrenatural não existe nem pode existir.

No momento em que estas grandes verdades forem entendidas e admitidas, a crença numa providência geral o especial tornar-se-á impossível. A partir desse instante o homem cessará seus esforços vãos para agradar um ser imaginário, e gastará seu tempo e atenção para os afazeres deste mundo. Ele abandonará qualquer esforço de conseguir qualquer objetivo pela oração e súplica.

O elemento de incerteza será, em grande parte removido do domínio do futuro e o homem, ganhando coragem a partir de sucessivas vitórias sobre as obstruções da natureza, atingirá uma serenidade totalmente desconhecida aos discípulos de qualquer superstição.

Os planos da humanidade não sofrerão mais a interferência de uma suposta onipotência, e ninguém acreditará mais que nações ou indivíduos são protegidos ou destruídos por qualquer divindade. Ciência, protegida das algemas de fregueses devotos ou evangélicos preconceituosos, será, dentro da sua esfera, suprema.

A mente investigará sem reverência e publicará suas conclusões sem medo. Agassiz não hesitará em declarar o mosaico da Cosmogonia totalmente inconsistente com as verdades demonstradas da geologia e cessará de fingir qualquer consideração pelas Escrituras Judaicas.

No momento em que a ciência for bem sucedida em negar à Igreja força à maldade, os verdadeiros pensadores triunfarão. As pequenas bandeiras da trégua, carregadas por tímidos filósofos desaparecerão, e a discussão covarde dará lugar à vitória - duradoura e universal.

Se admitirmos que um ser infinito controla o destino de pessoas e povos, a história se tornará uma farsa sangrenta e cruel. Eras após eras os fortes triunfaram sobre os fracos; os poderosos e sem coração atacaram e escravizaram os simples e inocentes, e em nenhum lugar dos anais da Humanidades, tem-se notícia de qualquer deus que tenha apoiado os inocentes e oprimidos.

O homem cessará de esperar apoio dos céus. A partir daí ele compreenderá que os céus não possuem ouvidos para ouvir, ou mãos para ajudar. O presente é a criança necessária de todo o passado. Não há qualquer chance e não haverá qualquer interferência.

Se abusos são destruídos, o homem deverá destruí-los. Se escravos são libertados, o homem deverá libertá-los. se novas verdades são descobertas, o homem deverá descobri-las; Se os nus são vestidos; se os famintos são alimentados; se a justiça é feita; se o trabalho é remunerado; se a superstição é expulsa da mente; se os indefesos são protegidos e se o correto finalmente triunfa, tudo terá sido obra do homem. As grandes vitórias do futuro serão vitória dos homens, e somente deles.

A natureza, até onde sabemos, sem paixão e sem intenção, forma, transforma, retransforma para sempre. Ela nunca chora sem se alegra. Ela produz o homem sem propósito, e o obstrui sem arrependimento. Ela não conhece distinção entre o benéfico e o pernicioso. Veneno e nutriente, dor e alegria, vida e morte, sorrisos e lágrimas são a mesma coisa para ela.

Ela não é nem piedosa nem cruel. Ela não pode se moldar por oração nem ser amolecida por lágrimas. Ela não conhece sequer a finalidade da reza. Ela não diferencia o veneno das presas da serpente da misericórdia do coração do homem. Só através do homem a natureza toma conhecimento do bem, da verdade, da beleza; e até onde sabemos, o homem é a maior inteligência.
 
E, no entanto, o homem continua a acreditar que há uma força independente e superior à natureza, e ainda procura, pela cerimônia, súplica, hipocrisia e sacrifício, obter ajuda dela. Suas melhores energias têm sido desperdiçadas em benefício desse fantasma. Os horrores da bruxaria se originaram de uma crença ignorante na existência de um ser depravado superior à natureza agindo independentemente de suas leis.

E todas as religiões supersticiosas têm na sua base a crença em dois seres, um bom e outro mau, cada qual da sua maneira possuindo poderes para mudar a ordem da natureza. A história das religiões é simplesmente a história dos esforços humanos de todas as épocas para evitar uma dessas forças e pacificar a outra. Ambas as forças têm inspirado menos que o medo abjeto.

A esperteza fria e calculista do diabo, e a ira de Deus, são igualmente terríveis. Em qualquer situação, o destino do homem teria sido fixado para sempre por uma força desconhecida superior a todas as leis e a todos os fatos. Até que esta crença seja afastada, o homem deve considerar-se um escravo de mestres fantasmas - nenhum dos dois promete liberdade nem nesta vida nem numa outra.

O homem precisa aprender a confiar em si próprio. Ler a Bíblia não o defenderá dos rigores do inverno, e sim casas aquecidas, lareiras e roupas adequadas. Para evitar a fome um arado vale mais que mil sermões e os medicamentos curam muito mais doentes que todas as orações já proferidas desde o princípio do mundo.

Apesar de muitos homens terem tentado harmonizar necessidade de livre arbítrio, a existência do mal, a infinita força e bondade de Deus, eles têm conseguido apenas produzir e aprender as falhas evidentes. Imensos esforços têm sido lançados em reconciliar idéias totalmente inconsistentes com os fatos dos quais nós estamos cercados, e as falhas das pessoas que têm fracassado em perceber as supostas reconciliação têm sido acusados de infiéis, ateus e zombadores. Toda a força da Igreja tem sido lançada para atingir filósofos e cientistas para impeli-los a negar a autoridade da demonstração, e a induzir algum Judas a trair a razão, um dos salvadores da Humanidade.

Durante aquela assustadora época chamada de "Era das Trevas", a fé reinava com quase nenhuma ação de rebeldia. Seus templos eram atapetados com joelhos e a riqueza das nações adornavam seus incontáveis santuários. Os grandes gênios imortais prostituíram-se para imortalizar seus caprichos, enquanto os poetas a santificavam em canção.

Com suas ofertas, cobriram a terra com sangue, as escalas da justiça se modificavam com seu ouro, e para seu uso foram inventados os mais ardilosos instrumentos de tortura. Ela construiu catedrais para Deus. E masmorras para os homens. Ela povoou as nuvens com anjos e a terra com escravos.

Por séculos o mundo tem retraçado seus passos - indo diretamente de volta à noite de barbárie! Uns poucos infiéis - uns poucos hereges gritaram: "Pare!" para a grande turba de devoção ignorante, e tornaram possível para os gênios do século dezenove revolucionar as crenças cruéis e supersticiosas da Humanidade.

As idéias do homem, com objetivo de ter real valor, devem ser livres. Sob influência do medo, o cérebro fica paralisado, e em vez de resolver corajosamente um problema sozinho, trêmulo, adota as soluções de outro. Desde que a maioria dos homens se curvam sobre o chão diante de qualquer príncipe ou rei, o que deverá ser sua infinita insignificância de suas pequenas almas diante de seu suposto criador ou Deus? Sob tais circunstâncias que valor terão suas idéias?

A originalidade da repetição, e o vigor mental da aquiescência é tudo o que temos o direito de esperar do mundo cristão. Desde que todas as perguntas possam ser respondidas pela palavra "Deus", pesquisa científica é simplesmente impossível. Tão logo os fenômenos são satisfatoriamente explicados, o domínio da força suposta de ser superior à natureza decresce, enquanto o horizonte do conhecimento deve continuamente se alargar.

Não é mais possível descrever a queda e ascensão de nações dizendo: "É o desejo de Deus". Esta explicação coloca ignorância e educação em situação de igualdade, e elimina na verdade a idéia de realmente explicar qualquer coisa que seja.

Irá o religioso fingir que a finalidade real da ciência á assegurar como e por que Deus age? A ciência, sob este ponto de vista, consistiria em investigar a lei da ação arbitrária, e uma grande busca para assegurar as leis necessariamente obedecidas por um infinito capricho.

Sob um ponto de vista filosófico, ciência é o conhecimento das leis da vida; das condições de felicidade; dos fatos que nos cercam, e as relações que mantemos entre homens e coisas; o homem pode por assim dizer, dominar a natureza e dobrar as forças elementares para o seu benefício, tornando forças cegas a serviço da sua mente.
 
A crença numa providência especial joga fora o espírito de investigação e é inconsistente com o esforço pessoal. Por que o homem enfrentaria os desígnios de Deus? Qual de vocês, ao pensar, poderia adicionar um pouco que fosse a sua estatura?

Sob a influência desta crença, o homem, aquecendo-se sob o sol da ilusão, olha os lírios do campo e se recusa a ter qualquer pensamento sobre o amanhã. Acreditando-se sob influência de uma força infinita que pode, a qualquer momento, atirá-lo até as profundezas do inferno ou elevá-lo às alturas dos céus, ele abandona, necessariamente, a idéia de realizar algo que seja por seu próprio esforço.

Quando esta crença era geral, o mundo era preenchido com ignorância, superstição e miséria. As energias do homem eram gastas em esforço vão para obter a ajuda desta força, suposta de ser superior à natureza. Por muito tempo até seres humanos eram sacrificados nos altares deste deus impossível. Para agradá-lo, mães derramavam o sangue dos seus próprios bebês; mártires cantavam canções triunfantes no meio das chamas; padres molhavam-se de sangue; freiras renunciavam à êxtase do amor; velhos homens trêmulos imploravam; mulheres soluçavam e suplicavam; todas as dores eram suportadas e todo o horror era perpetrado.

Por todos os longos anos que já passaram, a humanidade sofreu mais do que podemos conceber. O maior do sofrimento foi experimentado pelo fraco, o amoroso e o inocente. Mulheres foram tratadas como bestas venenosas, e criancinhas esmagadas como se fossem vermes. Milhares de altares foram tingidos com o sangue até de bebês; belas donzelas eram oferecidas a serpentes pegajosas; povos inteiros condenados a séculos de escravidão, e em toda a parte havia ultraje além da força do gênio para exprimir. Durante todos esses anos os sofredores suplicavam; os lábios secos da fome rezavam; as vítimas pálidas imploravam, e os céus permaneceram cegos e surdos.

Que utilidade têm os deuses para o homem?

Não é resposta dizer que um deus criou o mundo, estabeleceu certas regras, e então voltou sua atenção para outros assuntos, deixando seus filhos fracos, ignorantes e desamparados, para lutar a batalha da vida sozinhos.

Não é resposta declarar que em algum outro mundo este deus vai nos dar um pouco de, ou toda a sua felicidade. Que direito temos nós de esperar que um deus perfeitamente sábio, bom e poderoso fará algum dia melhor do que tem feito e está fazendo?

O mundo está cheio de imperfeições. Se ele foi feito por um ser infinito, que razão temos nós de dizer que o tornará mais perfeito do que ele agora é? Se o "pai" infinito permite que seus filhos vivam na ignorância e na desgraça agora, que evidência haverá de que ele melhorará essas condições? Deus conseguirá mais poder? Tornar-se-á ele mais misericordioso? Aumentará seu amor por suas pobres criaturas? Poderá a conduta de infinita sabedoria, força e amor, ser modificada? Poderá o infinito ser capaz de qualquer melhora que seja?
 
Somos informados pelos religiosos que este mundo é uma espécie de escola, que o mal que nos circunda tem o objetivo de desenvolver nossas almas, e que só pelo sofrimento o homem pode tornar-se puro, forte, virtuoso e sublime.

Supondo que isto seja verdade, o que dizer daqueles que morrem na infância? As criancinhas, de acordo com esta filosofia, nunca poderão desenvolver-se. Elas são desafortunadas em escapar da nobre influência da dor e do sofrimento, e em conseqüência disto, são condenadas à eternidade de inferioridade mental.

Se os religiosos estão certos nesta idéia, ninguém é mais desafortunado que os felizes, e deveríamos invejar os que sofrem. Se o mal é necessário para o desenvolvimento do homem, na sua vida, como será possível para e espírito melhorar na perfeita alegria do céu?

Desde que Paley achou seu relógio, o argumento da "criação" tem sido considerado como irrespondível. A Igreja ensina que este mundo, e tudo que ele contém foi criado como o conhecemos hoje; que a relva, as flores, as árvores, todos os animais incluindo o homem, foram criações especiais e que não possuem qualquer relações entre si.

Os mais ortodoxos admitirão que alguma terra tenha sido levada para o mar; que o mar tenha avançado um pouco sobre a terra, e que as montanhas sejam um pouco mais baixas que na época da criação.

A teoria do desenvolvimento gradual era desconhecida para nossos pais; a teoria da evolução não ocorria a eles. Nossos pais olhavam o arranjo das coisas como sendo o arranjo original. A terra parecia a eles fresca das mãos de um deus. Não conheciam nada sobre a evolução gradual ao longo de incontáveis anos, mas supunham que a quase infinita variedade de vegetais e animais existiam desde p princípio.

Suponha que numa ilha encontremos um homem de milhões de anos, e suponha o vejamos com uma bela carruagem, construída sob os mais modernos métodos. E suponha ainda que ele nos diga que aquilo era o resultado de centenas de milhares de anos de trabalho e de projetos; que por cinqüenta mil anos ele usara a madeira mais plana que pudesse encontrar, antes que percebesse que quebrando a madeira ele poderia obter a mesma superfície usando a metade do peso; então passaram-se mais milhares de anos para que ele inventasse rodas para a prancha; que as primeiras rodas eram sólidas, e milhares de anos de idéias o fizeram inventar os raios e pneus; que por milhares de anos ele usara rodas sem eixo; que se passaram mais centenas de anos para usar quatro rodas em vez de duas; que por um bom tempo ele andava trás da carruagem ao descer ladeiras, para segurá-la; e que por puro acaso ele inventou a canga; poderíamos concluir que esta homem fosse infinitamente engenhoso e perfeito mecânico? Suponha que o encontremos numa elegante mansão, e que ele nos informe que vive na casa por quinhentos anos antes de ter a idéia de por um telhado, e que só recentemente colocara janelas e portas; poderíamos dizer que desde o início ele era infinitamente bem informado e um perfeito arquiteto?

Não temos que concluir que um melhoramento nas coisas criadas indicam um melhoramento no criador?

Poderia um Deus infinitamente bom, poderoso e sábio, desejando produzir o homem, tenha iniciado com as formas mais primitivas de vida; desde os mais simples organismos conhecidos que possam ser imaginados, e durante imensuráveis períodos de tempo uma melhora gradual e quase imperceptível sobre o início tosco, até chegar ao homem?

Iria haver neste período, desperdício na produção de formas erradas, abandonadas depois? Pode a mente humana encontrar a mínima sabedoria sobre a terra com horrores que rastejam, que vivem da agonia e miséria dos outros? Podemos ver a propriedade da construção da terra, quando só uma pequena proporção da superfície seja capaz da inteligência humana? Quem poderá apreciar a misericórdia de se construir um mundo no qual animais devoram animais; Que toda boca seja um matadouro, e cada estômago uma tumba? Podemos encontrar infinita inteligência e amor na carnificina eterna e universal?

O que pensaríamos de um pai que desse uma fazenda a seus filhos e que antes de lhe passar a propriedade plantasse nela milhares de ervas venenosas e urtigas; que a enchesse de bestas ferozes e répteis venenosos; que colocasse nela água e insetos para que desenvolvesse malária; arranjasse a terra de tal modo que, de vez enquanto ela se abrisse e engolisse alguns dos seus filhos queridos; e além disso, colocasse também alguns vulcões nas vizinhanças que a qualquer momento derramasse rios de lava sobre seus filhos?

 Suponha que esse pai evitasse dizer a seus filhos quais ervas eram venenosas; nada dissesse sobre terremotos e deixasse em segredo os vulcões; consideraríamos esse pai um anjo ou demônio?

E no entanto é exatamente isto que o Deus ortodoxo tem feito.

De acordo com teólogos Deus preparou este globo especialmente para a habitação de seus filhos queridos, e no entanto ele encheu as florestas de bestas ferozes; colocou serpentes em cada caminho; atormentou o mundo com terremotos e adornou sua superfície com montanhas flamejantes.

Apesar de tudo isto nos dizem que o mundo é perfeito; que foi projetado por um ser perfeito, e portanto, é também perfeito. No momento seguinte nos dirão estas mesmas pessoas que o mundo foi amaldiçoado; coberto com espinheiros, urtigas e espinhos, e que o homem fora condenado à doença e morte, simplesmente porque nossa querida pobre e falecida mãe comera uma fruta contrariando o comando de um deus arbitrário.

Um devoto amigo meu, tento ouvido que eu falara que o mundo é coberto de imperfeições, perguntou-me se o relato era verdadeiro. Sabendo que era, ele expressou grande surpresa que alguém fosse culpado dessa presunção. Ele afirmou que em seu julgamento seria impossível apontar uma imperfeição que seja.

"Seja bom o suficiente", disse ele, "para fazer um melhoramento que seja, se você tivesse poder."

"Bem", disse eu, "traria saúde para todos em vez de doenças."

A verdade é, é impossível harmonizar todas essas dores e agonias com a idéia de que fomos criados, e somos supervisionados e protegidos por um Deus poderoso, benevolente e sábio, que seja superior e independente da natureza.

Os sacerdotes, entretanto, compensam todas as doenças desta vida com as esperadas alegrias da próxima. Somos assegurados de que tudo é perfeição no paraíso, que seu céu não tem nuvens - que tudo é serenidade e paz.

Aqui impérios podem cair; dinastias podem extinguir-se em sangue; milhões de escravos podem labutar sob os raios impiedosos do sol, e o cruel bastão dos chicotes; entretanto tudo é alegria no paraíso. Pestes podem atapetar o mundo com cadáveres dos entes queridos; os sobreviventes podem curvar-se sobre eles em agonia - entretanto a árvore plácida do céu permanece impassível.

Crianças podem se esvair pedindo em vão um pedaço de pão; bebês podem ser devorados por serpentes, enquanto o sorriso impassível de Deus continua a brilhar. O inocente pode definhar no escuro das masmorras; bravos homens e mulheres heróicas podem virar cinzas na estaca do fanatismo, enquanto o céu é cheio de alegrias e música.

No mar aberto, na escuridão da noite tempestuosa, os náufragos se debatem no meio das ondas implacáveis, enquanto os anjos tocam calmamente suas harpas. As ruas das cidades são cheias de doentes, deformados, desamparados; as câmaras da dor são coroadas com as pálidas formas do sofrimento, enquanto os anjinhos voam e flutuam no reino feliz onde vivem.

No céu eles estão muito felizes para ter simpatia; muito ocupados cantando para ouvir as súplicas dos que sofrem. Seus olhos são cegos; suas orelhas estão tapadas e seus corações já viraram pedra pelo infinito egoísmo da alegria.

O marinheiro salvo está muito feliz ao atingir os umbrais para pensar um momento nos seus irmãos que se afogam. Com a indiferença da felicidade, com o desprezo do êxtase, o céu é inatingível às misérias da terra. Cidades são devoradas pela lava; a terra se abre e milhares perecem; homens estendem suas mãos para os céus mas os deuses estão muito felizes para ajudar seus filhos. Os sorrisos das divindades não tomam conhecimento das lágrimas dos homens. Os gritos de alegria dos céus abafam os lamentos da terra.

Tendo demonstrado como os homens criaram os deuses, e como eles se tornaram escravos temerosos da sua própria criação, a questão naturalmente vem à tona: Quando eles se libertarão, mesmo um pouco, desses monarcas do céu, desses déspotas das nuvens, dessa aristocracia do ar? Como eles sobrepujarão seu terror abjeto e ignorante e jogará fora os cabrestos da superstição?

Provavelmente a primeira coisa a liberar a mente do homem foi a descoberta da ordem, da regularidade, da periodicidade do universo. Com isto ele começou a suspeitar de que tudo não aconteceu puramente em referência a ele.

Ele percebeu que o que quer que ele faça, os movimentos dos planetas eram sempre os mesmos; que eclipses eram periódicas, e que até cometas chegam a certos intervalos. Isto começou a convencê-lo de que eclipses e cometas nada tinham a ver com ele, e que sua conduta nada tinha a ver com esses corpos celestes. Perceberam que eles não foram feitos para o seu benefício e punição.

Eles começaram então a vê-los com admiração e não com medo. Entenderam que a fome não era mandada por uma divindade enraivecida e vingativa, mas era o resultado da negligência e ignorância do homem. Compreenderam que doenças não eram causadas por espíritos maus. Viram que doenças eram causadas por causas naturais, e poderiam ser curadas por métodos naturais.

Ele demonstrou, para sua satisfação pelo menos, que oração não é remédio. Descobriu, pela sua triste experiência, que seus deuses não têm qualquer utilidade prática, que nunca o ajudaram, exceto quando ele já estava apto a ajudar a si próprio.

Por fim ele começou a suspeitar de que suas ações individuais nada tinham a ver com misteriosas aparições no céu; que era impossível para ele ser mau o suficiente para causar um vendaval, ou bom o suficiente para cessá-lo.

Depois de muitos séculos de pensamento, começou a ver que rezar junto com o padre não provoca um terremoto. Ele percebeu, com uma forte dose de espanto, que pessoas boas eram também às vezes fulminadas por um raio, enquanto que algumas muito más, escapavam. Ele era freqüentemente forçado à conclusão dolorosa (e é a mais dolorosa que um ser humano experimenta) que nem sempre o bem prevalece. Viu que os deuses não interferem em benefício dos fracos e inocentes.

Ele agora está surpreso ao se ver como um não crente e experimentando a felicidade e gozando de excelente saúde. Ele finalmente se certifica de que não poderia haver nenhuma conexão possível entre um inverno particularmente rigoroso e sua omissão em dar um carneiro à paróquia.

Começou a suspeitar que a ordem do universo não era constantemente modificada para ajudá-lo por repetir uma crença. Ele percebeu que uma criança não raramente roubava após ter sido batizada. Viu uma abissal distância entre religião e justiça e que os adoradores do mesmo deus certas vezes se deleitavam em cortar as gargantas uns dos outros. Presenciou as disputas religiosas enchendo o mundo de ódio e escravidão.

Por fim, teve a coragem de suspeitar que nenhum deus em qualquer época, interfere com a ordem dos eventos. Ele aprendeu alguns fatos e constatou que esses fatos positivamente recusavam-se a se harmonizar com a ignorância supersticiosa dos seus pais.

Achando os livros sagrados incorretos e falsos em alguns aspectos, sua fé na autenticidade começou a se abalar; achando seus padres ignorantes em alguns pontos, ele começou a perder o respeito por ambos. Este foi o princípio da liberdade intelectual.

A civilização do homem tem crescido na mesma medida em que a força da religião tem decaído. O avanço intelectual do homem depende de até que ponto ele pode substituir uma velha superstição por uma nova verdade. A Igreja não admite que o homem faça qualquer uma dessas trocas; pelo contrário, toda a sua força está em evitá-las.

Apesar da Igreja, entretanto, o homem descobriu que alguns de seus conceitos religiosos estavam errados. Lendo sua Bíblia, ele descobriu que as idéias de seu Deus eram as mais cruéis e brutais que aquelas do mais depravado selvagem.

 Ele também descobriu que seu livro sagrado estava cheio de ignorância, e que ele devia ter sido escrito por pessoas totalmente sem conhecimento sobre os fenômenos naturais que nos circundam; e agora alguns homens têm a bondade e honestidade de expressar seus pensamentos honestos.

Em todas as épocas alguns pensadores, alguns que duvidavam, alguns investigadores, alguns que odiavam a hipocrisia, alguns que desprezavam a vergonha, alguns bravos amantes do direito, têm, orgulhosamente, alegremente e heroicamente derrubado a fúria ignorante da superstição em benefício do homem e da verdade.

Esses divinos homens eram feitos em pedaços pelos adoradores dos deuses. Sócrates foi obrigado a tomar veneno por ter negado reverência a algumas divindades. Cristo foi crucificado por uma turba de religiosos sob a acusação de blasfêmia. Nada é tão gratificante para um religioso que destruir seus inimigos sob o comando do seu deus. Perseguição religiosa é resultado da mistura entre amor a Deus e ódio ao homem.

As terríveis guerras religiosas que inundaram o mundo com sangue tendem ao menos a condenar todas as religiões à desgraça e ódio. Pessoas que pensam começaram a questionar a origem divina das religiões que fizeram seus seguidores considerar os direitos dos outros com desprezo.

Uns poucos começaram a comparar o Cristianismo com as religiões pagãs, e se viram forçados a admitir que a diferença não valia a pena considerar. Eles então perceberam que outras nações eram até mais felizes e prósperas que suas próprias. Começaram a suspeitar que sua religião, na verdade, não tinha muito valor.

Por trezentos anos os cristãos do mundo procuraram resgatar o sepulcro vazio de Cristo dos "infiéis". Por trezentos anos os exércitos da cruz foram atacados e derrotados pelos vitoriosos anfitriões. Este fato marcante semeou as sementes da desconfiança em toda a Cristandade, e milhões começaram a perder sua confiança em um Deus que havia sido vencido por Maomé.

As pessoas então descobriram que comércio faz amigos, enquanto religiões fazem inimigos, e que o zelo religioso era totalmente incompatível com a paz entre nações e indivíduos. Eles descobriram que aqueles que mais amavam um deus eram os menos aptos a amar o homem, que a arrogância do perdão universal era ridícula, e que os mais cruéis tinham a afronta de rezar por seus inimigos, e que a humildade e tirania eram fruto da mesma árvore.

Durante muito tempo um conflito mortal era travado entre uns poucos bravos homens e mulheres de idéias de um lado, e a grande massa de religiosos ignorantes da outra. Era a guerra entre a ciência e a fé. Os poucos apelavam para a razão, honra, lei, a liberdade, o conhecimento e a felicidade aqui neste mundo. Os muitos apelavam para o preconceito, o medo, o milagre, a escravidão, o desconhecido e para a miséria daqui. Os poucos diziam: "Pensem!" Os muitos gritavam: "Acreditem!"

A primeira dúvida foi o útero e o berço do progresso, e da primeira dúvida o homem continuou avançando. Começou a investigar e a Igreja começou a se opor.

O astrônomo rastreava o céu enquanto a Igreja rotulava sua testa de "infiel", e agora nenhuma estrela em todo o firmamento leva um nome cristão.

Apesar de todas as religiões, os geólogos estudaram a terra, leram a história nos livros de pedra, e encontraram, escondidos no seu interior, lembranças de todas as épocas.

Velhas idéias pereceram nos laboratórios de Química e verdades úteis tomaram seu lugar. Um por um, os conceitos religiosos foram colocados sob o olhar da ciência, e logo depois, nada além de lixo foi encontrado. Um novo mundo foi descoberto pelo microscópio; em toda a parte encontraram o infinito; em toda direção o homem investigava e explorava e em nenhum lugar, nas estrelas e na terra, não foram encontradas as pegadas de nenhum ser superior ou independente da natureza. Em lugar nenhum foi descoberta a mais tênue evidência de qualquer interferência externa.
 
Estas são as verdades sublimes que permitem ao homem jogar fora o cabresto da superstição. Estes são os fatos esplêndidos que tomam o cetro da autoridade das mãos do sacerdote.

No vasto cemitério chamado passado, está a maior parte das religiões do homem, e lá, também, estão também quase todos os seus deuses. Os templos sagrados da Índia já são ruínas há longo tempo atrás. Sobre colunas e cornijas; sobre as paredes desenhadas e pintadas, vicejam e se espalham plantas trepadeiras. Brama, o ouro, com quatro cabeças e quatro braços. Vishnu, a sombra, o que castiga os maus, com seus três olhos, seu crescente, com seu colar de crânios; Shiva, o destruidor, vermelho com mar de sangue; Kali, a deusa; Draupadi, com braços brancos; e Krishna, o Cristo, todos se foram e deixaram o trono dos céus abandonados.

Ao longo da beira do sagrado Nilo, Ísis não mais vaga chorando, procurando o defunto Osíris. A sombra da carranca de Tifon não cai mais nas ondas. O sol nasce como outrora, e seus raios dourados ainda atingem os lábios de Menon, mas Menon está tão mudo quanto a Esfinge.

As múmias empoeiradas ainda esperam pela ressurreição prometida pelos sacerdotes, e as velhas crenças registradas em curiosas pedras esculpidas, dormem no mistério de uma língua morta e perdida.

Odin, o autor da vida e da alma, Vili e Ye, e o poderoso gigante Ymir, debandaram há muito tempo das geladas paisagens do norte; e Tor, com luvas de ferro e sua clava flamejante, não mais esmaga montanhas.

Os antigos círculos e cromeleques dos druidas estão quebrados; caídos nos ermos das montanhas e cobertos com musgos de séculos. Os fogos divinos dos astecas e da Pérsia se extinguiram nas cinzas do passado, e não há mais ninguém para reacendê-lo ou alimentar as chamas sagradas.

A harpa de Orfeu está silenciosa; o caneco derramado de Baco foi deixado de lado; Vênus jaz morta, de pedra e seu seio branco não mais pulsa de amor. As correntezas ainda passam mas não há mais naiads para tomar banho; as árvores ainda balançam, mas nas clareiras da floresta nenhuma driad dança.

Os deuses fugiram do monte Olimpo. Nem mesmo a mais bela das mulheres pode fisgá-los de volta. Desaparecidos para sempre estão os trovões do Sinai; perdidas estão as vozes dos profetas, e a terra, antes fluindo com leite e mel é agora um deserto.

Um por um os mitos se desvaneceram com as nuvens: um por um, os fantasmas desapareceram, e um por um, fatos, realidade e verdades tomaram seu lugar. O sobrenatural praticamente sumiu, mas o natural persiste. Os deuses voaram, mas o homem está aqui.
 
Nações, como indivíduos, têm seus períodos de juventude, de maturidade e declínio. Religiões também. O mesmo destino inexorável aguarda todas elas. Os deuses criaram, mas as nações devem perecer com seus criadores. Elas foram criadas por homens, mas como homens, elas devem desaparecer.

As divindades de uma era são a matéria prima dos próximos. A religião dos nossos dias e do nosso país não está mais isenta de gozação daqueles que virão no futuro do que os outros. Quando a Índia resplandecia, Brama triunfava no trono do mundo. Quando o cetro passou para o Egito, Ísis e Osíris receberam as homenagens da humanidade.

A Grécia, com seu valor, tornou-se império e Zeus se tornou a autoridade. O mundo tremeu com a ameaça dos intrépidos filhos de Roma, e Jove agarrou com as mãos os raios do céu. Roma caiu, os cristãos, no seu território, com a espada vermelha da guerra, dominaram as nações do mundo, e agora Cristo senta sobre o velho trono. Quem será seu sucessor?

Dia após dia o crescimento religioso se torna menor. Dia após dia velhos espíritos se extinguem das crenças e livros. O entusiasmo fervoroso, o inextinguível zelo da primitiva Igreja não existe mais, para nunca mais voltar. As cerimônias continuam, mas antiga fé está-se apagando no coração do homem. O argumento gasto deixa de convencer e as denúncias de que antes empalideciam as faces de uma raça, hoje causam galhofa e desgosto.

Enquanto o tempo passa, os milagres se tornam menores e mais raros e as evidências que nossos pais achavam conclusivas falham totalmente em nos convencer. Há um conflito inconciliável entre religião e ciência, e ele não pode ocupar o mesmo cérebro no mesmo mundo.

Enquanto afasto todas as crenças, enquanto nego as verdades de todas as religiões, não há em meu coração nem em meus lábios qualquer desprezo pelas almas esperançosas, amorosas e suaves que crêem que dessa discórdia resultará uma perfeita harmonia; que todo o mal se tornará de algum modo, bem, e que em toda parte há um ser que, de alguma forma irá requisitar e glorificar cada um dos filhos dos homens; mas para aqueles que impiedosamente tentam provar que a salvação é quase impossível; que a condenação é quase certa; que a avenida do universo leva para o inferno; que enchem o mundo com medo a morte com horror; que amaldiçoam o berço e caçoam da tumba, é impossível ter algum sentimento além de piedade, desprezo e ironia.

Razão, Experimentação e Observação - a Santíssima Trindade da Ciência - ensinaram-nos que a felicidade é o único bem; que a hora de ser feliz é agora, e o caminho para ser feliz é também trazer este sentimento para os outros. Isto é o suficiente para nós. Com esta crença estamos contentes em viver e morrer. Se por qualquer possibilidade a existência de uma força superior e independente da natureza for demonstrada, haverá tempo suficiente para nos ajoelharmos. Até lá, permaneçamos eretos.

Considerando-se o fato de que os infiéis de todas as épocas têm defendido os direitos do homem, e em todos os tempos têm sido os destemidos advogados da liberdade e justiça, somos sempre acusados pela Igreja de estarmos demolindo sem reconstruir novamente.

A Igreja deveria saber já que é impossível roubar dos homens suas opiniões. A história das perseguições religiosas estabeleceu o fato de que a mente sempre resiste e desafia qualquer tentativa de controlá-la através da violência. A mente sempre abraça velhas idéias antes estar preparada para uma nova. Quando compreendemos a verdade, todas as falsas idéias são necessariamente postas de lado.

Um cirurgião certa vez foi chamado para que oferecesse qualquer assistência que pudesse a um inválido. O cirurgião começou a explicar detalhadamente sobre a natureza da doença; sobre as propriedades curativas de certas drogas; das vantagens do exercício, do ar fresco, da luz e das várias formas com as quais a saúde pode ser restaurada.

Todas as observações faziam tanto sentido e demonstravam tanta sabedoria e conhecimento, que o aleijado, ficando alarmado, gritou:

"Não leve minhas muletas, eu imploro ao senhor. Elas são meu único apoio, e sem elas estarei em situação miserável!"

"Eu não levarei suas muletas", disse o cirurgião, "Irei curá-lo, e só então você mesmo jogará fora sua muletas".

Os caprichos das nuvens propõem os infiéis substituir pelas realidades da terra; a superstição, pelas esplêndidas demonstrações da ciência; e a tirania teológica, pela irrefreável liberdade de pensamento.
 
Não afirmamos que descobrimos tudo; que nossas doutrinas são a verdade final. Não achamos que haja um fim para as descobertas do homem. Não poderemos desvendar as infinitas complicações da matéria e da força. A história de um nômade é tão misteriosa como a história do universo; uma gota d'água é tão maravilhosa como os mares; um monte, como as florestas; e um grão de areia, como todas as estrelas.

Não estamos buscando atingir o futuro, mas libertar o presente. Não estamos forjando correntes para nossos filhos, mas tentando quebrar aquelas que nossos pais colocaram em nós. Somos os advogados do questionamento, da investigação e do pensamento.

Isto prova que não estamos satisfeitos com todas as nossas conclusões. Filosofia não possui o egoísmo da fé. Enquanto a superstição constrói muros e cria obstruções, ciência abre todas as estradas do pensamento. Não fingimos ter circunavegado tudo e ter resolvido todas as dificuldades, mas sabemos que é melhor amar os homens que temer deuses; que é mais nobre investigar e pensar por nós mesmos que repetir uma oração.

Estamos satisfeitos em ter um pouco de liberdade aqui na terra em vez de adorar um tirano lá no céu. Não pretendemos resolver tudo que nos cerca; mas pretendemos fazer tudo de bom que pudermos e lançar todo o esforço que for possível na causa sagrada do progresso humano. Sabemos que eliminando deuses e forças sobrenaturais não é um fim por si só. É apenas um meio: o fim é conseguir a felicidade do homem.

Derrubar florestas não é a finalidade da agricultura. Expulsar piratas dos mares não é a finalidade do comércio.

Estamos lançando as fundações do grande templo do futuro, e não o templo dos deuses, mas o templo dos homens - no qual, com os rituais apropriados, será celebrada a religião da humanidade.

Estamos fazendo o pouco que for possível para apressar a vinda de um dia em que a sociedade deixará de produzir milionários e mendigos - indolência em excesso e indústria esfomeada - verdade em farrapos e a superstição coroada e com batina. Estamos buscando o tempo em que o útil será honrado; e a Razão, coroada no trono do cérebro do mundo, será a Rainha das Rainhas, e o Deus dos Deuses.