quinta-feira, 24 de março de 2011

A Sentença de Galileu Galilei

GALILEO GALILEI





"Afirmar que a terra gira em torno do sol é tão errôneo quanto afirmar que Jesus não nasceu de uma virgem."
Cardeal Bellarmino (1615, durante o julgamento de Galileu)

"Nós (seguem os nomes e os títulos dos cardeais) pela misericórdia de Deus, Cardeais da Santa Igreja Romana, delegados especialmente como Inquisidores gerais da Santa Sé Apostólica, contra a maldade herética, da República Cristã.

"Sendo certo que tu, Galileo, filho de Vincenzo Galilei, florentino, de setenta anos de idade, foste denunciado em 1615 a este Santo Ofício por teres como verdadeira a falsa doutrina, ensinada por alguns, que o Sol seja centro do mundo e imóvel, e que a Terra se mova, ainda de movimento diurno; por, acerca da mesma, teres correspondência com alguns matemáticos da Germânia; por teres dado à estampa cartas intituladas "Das manchas Solares", nas quais explicavas a mesma doutrina como verdadeira; por, às objecções que às vezes te faziam tiradas da Sagrada Escritura, responderes interpretando a dita Escritura, conforme o teu sentido;

"E tendo sucessivamente sido apresentada cópia dum manuscrito, sob a forma de carta, a qual se dizia ter sido escrita por ti, a um tal teu discípulo, e nessa, seguindo a posição de Copérnico, se conterem várias proposições contra o verdadeiro sentido e autoridade da Sagrada Escritura;

"Querendo por isto este Sacro Tribunal dar providências contra a desordem e o dano que de aqui provinha e andava crescendo com prejuízo da Santa Fé;

"Por ordem de Nosso Senhor e dos Eminentíssimos e Reverendíssimos Senhores Cardeais desta Suprema e Universal Inquisição, foram, pelos Qualificadores Teólogos, qualificadas as duas proposições da estabilidade do Sol e do movimento da Terra do seguinte modo:

"Que o Sol seja centro do mundo e imóvel de movimento local, é proposição absurda e falsa em filosofia, e formalmente herética, por ser expressamente contrária à Sagrada Escritura;

"Que a Terra não seja centro do mundo nem imóvel, mas que se mova, ainda de movimento diurno, é igualmente proposição absurda e falsa em filosofia, e considerada em teologia ad minus errónea em Fé.

"Mas querendo-se naquele tempo proceder para contigo com benignidade, foi decretado na Sacra Congregação reunida diante de Nosso Senhor a 25 de Fevereiro de 1616, que o Eminentíssimo Cardeal Bellarmino te ordenasse que tu devesses totalmente abandonar a dita opinião falsa e que, recusando tu tal fazeres, te fosse pelo Comissário do Santo Ofício intimado que deixasses a dita doutrina e que não pudesses ensiná-la a outros, nem defendê-la, nem tratar dela, e que, se não te conformasses com a intimação, fosses encarcerado;

"Em execução do mesmo decreto, no dia seguinte, no mesmo palácio e na presença do acima dito Eminentíssimo Senhor Cardeal Bellarminio, depois de teres sido pelo mesmo Senhor Cardeal benignamente avisado e admoestado, te foi pelo Comissário do Santo Oficio daquele tempo intimado, com notário e testemunhas, que totalmente devesses abandonar a dita falsa opinião e que no futuro a não pudesses sustentar, nem defender, nem ensinar de qualquer maneira, nem pela voz nem pelo escrito, e tendo tu prometido obedecer, foste mandado em paz.

"E a fim de que tolhesse inteiramente tão perniciosa doutrina e não andasse caminhando mais, com grave prejuízo da verdade católica, saiu um decreto da Sacra Congregação do Índice, por meio do qual foram proibidos os livros que tratam de tal doutrina e foi esta declarada falsa e totalmente contrária à Sagrada e Divina Escritura.

"E tendo ultimamente aparecido aqui um livro, estampado em Florença no ano passado, cuja inscrição mostrava que fosses tu o seu autor, dizendo o título: "Diálogos de Galileo Galilei acerca dos dois Máximos Sistemas do Mundo, Ptolomaico e Copernicano"; e informada depois a Sacra Congregação de que, com a impressão do dito livro, cada vez mais tomava pé e se disseminava a falsa opinião do movimento da Terra e da estabilidade do Sol; foi o dito livro diligentemente considerado e nele achada expressamente a transgressão do preceito que te foi intimado, tendo tu no mesmo defendido a opinião já condenada e na tua face por tal declarada, acontecendo que tu, no dito livro, procuras persuadir que a deixas como indecisa e expressamente provável, o que também é erro gravíssimo, não podendo de nenhum modo ser provável uma opinião declarada e definida por contrário à Escritura Divina.

"Por isso, por nossa ordem foste chamado a este Santo Ofício, no qual, com o teu juramento, examinado, reconheceste o livro como por ti composto e dado à estampa. Confessaste que, cerca de dez ou doze anos depois de te ter sido feita a intimação como acima, começaste a escrever o dito livro; que pediste autorização para o estampar sem porém significares àqueles que te deram semelhante faculdade que te tinha sido ordenado não sustentar, defender, nem ensinar de qualquer modo tal doutrina.

"E parecendo a nós que tu não tinhas dito inteiramente a verdade acerca da tua intenção, julgamos ser necessário proceder a um rigoroso exame de ti; no qual sem porém prejuízo algum das coisas por ti confessadas e contra ti deduzidas como acima acerca da tua intenção, respondeste catolicamente.

"Portanto, vistos e maduramente considerados os méritos desta tua causa, com as supraditas tuas confissões e escusas e quanto de razão se devia ver e considerar, chegámos contra ti à infra-escrita sentença:

"Invocando o Santíssimo Nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e da gloriosíssima Mãe sempre virgem Maria;

"Por esta nossa definitiva sentença, a qual, pro tribunali, de conselho e parecer dos Reverendíssimos Mestres de Sacra Teologia e Doutores unius utriusque iuris, nossos consultores, proferimos nestes escritos, na causa e causas pendentes ante nós entre o Magnífico Carlo Sinceri, doutor unius utriusque iuris, Procurador Fiscal deste Santo Ofício, duma parte e tu, Galileo Galilei ante-dito, réu aqui presente, inquirido, processado e confesso como acima, da outra parte:

"Dizemos, pronunciamos, sentenciamos e declaramos que tu, Galileo supra-dito, pelas coisas deduzidas no processo e por ti confessadas como acima, te tornaste veementemente suspeito de heresia, a saber, por teres sustentado e crido doutrina falsa e contrária às Sagradas e Divinas Escrituras, que o Sol seja centro da Terra e que não se mova de oriente para ocidente e que a Terra se mova e não seja centro do mundo, e que se possa ter e defender por provável uma opinião depois de ter sido declarada e definida por contrária à Sagrada Escritura;

"E consequentemente estás incurso em todas as censuras e penas dos sagrados cânones e outras constituições gerais e particulares contra semelhantes delinquentes impostas e promulgadas.

"Das quais nos apraz absolver-te desde que primeiro, com coração sincero e fé não fingida, diante de nós, abjures, maldigas e detestes os supra-ditos erros e heresias e qualquer outro erro e heresia contrária à Igreja Católica e Apostólica, pelo modo e forma que por nós te será dada.

"E, a fim que este teu grave e pernicioso erro e transgressão não fique de todo impune, e sejas mais cauto para o futuro e exemplo a outros para que se abstenham de semelhantes delitos, ordenamos que, por público édito, seja proibido o livro dos "Diálogos de Galileo Galilei".

"Te condenamos ao cárcere formal neste Santo Ofício ao nosso arbítrio; e por penitência salutar te impomos que pelos três próximos anos digas uma vez por semana os sete salmos penitenciais, reservando para nós a faculdade de moderar, mudar ou levantar, no todo ou em parte, as supra-ditas penas e penitencias.

"E assim dizemos, pronunciamos, sentenciamos, declaramos, ordenamos e reservamos, nisto e em tudo o mais, do melhor modo e forma que de razão podemos e devemos." (Seguem as assinaturas de sete dos dez cardeais).

Seguidamente o acusado ajoelhou e, com as mãos sobre os Evangelhos, leu em voz alta este outro documento, para esse fim expressamente confeccionado por mão alheia:

"Eu, Galileo Galilei, filho do falecido Vincenzo Galilei, de Florença, de minha idade setenta anos, constituído pessoalmente em juízo e ajoelhado diante de vós Eminentíssimos e Reverendíssimos Cardeais, inquisidores gerais em toda a República Cristã contra a maldade herética;

"Tendo diante dos meus olhos os sacrossantos Evangelhos, os quais toco com as minhas próprias mãos, juro que sempre cri, creio agora, e com a ajuda de Deus crerei para o futuro, tudo aquilo que afirma, prega e ensina a Santa Igreja Católica Apostólica.

"Mas visto que, por este Santo Oficio, por haver eu (depois de me ter intimado juridicamente pelo mesmo que abandonasse totalmente a falsa opinião que o Sol seja centro do mundo e que não se mova e que a Terra não seja centro do mundo e que se mova, e que não pudesse afirmar, defender nem ensinar de qualquer modo, pela voz ou pelo escrito, a dita falsa doutrina, e depois de me ter sido notificado que a dita doutrina é contrária à Sagrada Escritura) escrito e dado à estampa um livro no qual trato a mesma doutrina já condenada e empregado argumentos com muita eficácia a favor dela, sem dar nenhuma solução, fui julgado veementemente suspeito de heresia, por haver dito e crido que o Sol seja centro do mundo e imóvel, e a Terra não seja centro e se mova;

"Portanto, querendo eu afastar da mente das Eminências Veneráveis e de todo o fiel cristão esta veemente suspeição, justamente de mim concebida, com coração sincero e fé não fingida, abjuro, amaldiçoo e detesto os supraditos erros e heresias, e geralmente qualquer outro erro, heresia e seita contrária à Santa Igreja; e juro que para o futuro não mais direi nem afirmarei, pela voz ou pelo escrito, coisas tais que por elas se possa haver de mim semelhante suspeição; mas, se conhecer algum herético, ou que seja suspeito de heresia, o denunciarei a este Santo Oficio, ou ao Inquisidor ou Ordinário do lugar onde me encontrar.

"Juro ainda e prometo cumprir e observar inteiramente todas as penitências que me foram impostas, ou vierem a ser, por este Santo Oficio;

"E, no caso de transgredir algumas das ditas promessas ou juramentos, o que Deus não queira, submeto-me a todas as penas e castigos pelos sagrados cânones e outras constituições gerais e particulares contra semelhantes delinquentes impostas e promulgadas.

"Assim Deus me ajude e estes seus santos Evangelhos, que toco com as minhas próprias mãos.

"Eu, Galileo Galilei, abjurei, jurei, prometi e me obriguei como acima; e, em fé do verdadeiro, pela minha própria mão subscrevi a presente cédula da minha abjuração e a recitei de palavra em palavra, em Roma, no convento de Minerva, neste dia 22 de Junho de 1633."
 .




2 comentários:

  1. Eu, particularmente, diria: -"Por que não sou CATÓLICO".
    epinke@hotmail.com.

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  2. Obrigado Anônimo pelo seu comentário, mas prender, torturar e matar gente em nome de Jesus não foi exclusividade da Igreja Católica. Os protestantes também fizeram o mesmo. Em assim sendo, a merda é a mesma, só muda a mosca. Veja:
    http://porquenaosoucristao.blogspot.com.br/2013/05/inquisicao-protestante.html
    http://porquenaosoucristao.blogspot.com.br/2013/05/jean-cauvin-joao-calvino.html

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