sábado, 25 de maio de 2013

A FEITICEIRA


Sprenger diz (antes de 1500) : "Deve-se dizer a he­resia das feiticeiras, e não dos feiticeiros; estes têm pouca importância". E um outro autor, sob o reinado de Luís XIII: "Para um feiticeiro, existem dez mil feiticeiras".

"A Natureza as fez feiticeiras." - É o gênio próprio à mulher e seu temperamento. Ela nasceu Fada. Pela volta regular da exaltação, ela é Sibila. Pelo amor, ela é Má­gica. Pela sua fineza, sua malícia (muitas vezes fantástica e benfazeja), ela é Feiticeira, e faz a sorte ou, pelo menos, adormece, engana os males.

Todos os povos primitivos tiveram um mesmo prin­cípio; nós os vemos através das Viagens. O homem caça e combate. A mulher imagina, sonha; ela é mãe dos sonhos e dos deuses. Ela é vidente em certos dias; ela tem a asa infinita do desejo e do sonho. Para melhor contar o tempo, ela observa o céu. Mas a terra não tem menos o seu coração. Seus olhos se baixam para as flores amo­rosas, ela mesma uma flor, e aprende a conhecê-las inti­mamente. Como mulher, ela lhes pergunta como curar aqueles que ama.

Singelo e comovedor começo das religiões e das ciências. Depois, tudo se dividirá; ver-se-á o homem especial, jogral, astrólogo ou profeta, nigromante, sacer­dote, médico. Mas a princípio a mulher é tudo.

Uma religião forte e viva, como o foi o paganismo grego, começa com a sibila e termina com a feiticeira. A primeira, formosa donzela, o embalou em plena luz do dia e lhe deu encanto e esplendor. Mais tarde, abatido, enfermo, nas sombras da Idade Média, nos landes e nos bosques, ele foi protegido pela feiticeira, que com sua piedade o alimentou, fê-Io viver. Assim, para as religiões, a mulher é mãe, terna protetora e nutriz fiel. Os deuses são como os homens: nascem e morrem em seu seio.

Mas quanto lhe custa sua fidelidade! Reinos, magos da Pérsia, encantadora Circe! sublime Circe! que tem sido de vós? e que bárbara transformação! Aquela que do trono do Oriente ensinou as virtudes das plantas e a via­gem das estrelas; aquela que, ao trípode de Delfos, ilu­minada pelo deus da Luz, dizia orações ao mundo de joelhos - é essa, mil anos depois, que é caçada como. uma besta selvagem, perseguida pelos campos, desonrada, ape­drejada, colocada nas chamas da fogueira!

Mas o clero não tem muitas fogueiras, nem o povo bastantes injúrias, o menino muitas pedras para atirar contra a infortunada. O poeta (também um menino) atira-lhe outra pedra, mais cruel ainda para uma mulher. Ele supõe, gratuitamente, que ela sempre fora feia e velha. A palavra "feiticeira", imaginam-se as horrorosas velhas de Macbeth. Mas os cruéis processos a que se submeteram ensinam o contrário: muitas morreram precisamente por que eram jovens e belas.

A sibila predizia a sorte; a feiticeira, o fato. É a grande, a verdadeira diferença. Ela evoca, conjura, opera, por assim dizer, o destino. Não é a antiga Cassandra que via tão bem o futuro, o deplorava, o aguardava. A feiticeira acredita neste futuro. Mais que Circe, mais que Medéia, ela tem à mão a varinha da virtude natural, e por guia e irmã a Natureza. Ela já tem as feições do Prometeu moderno. Nela começa a indústria, sobretudo a indústria soberana que cura, que conforta o homem. Ao contrário de Sibila, que parecia olhar a aurora, ela olha o poente, mas justamente o poente sóbrio dá, muito antes que a aurora (como acontece aos picos dos Alpes), uma alvorada antecipada do dia.

O sacerdote entrevê bem que o perigo, o inimigo, a rivalidade temível está naquela que ele finge desprezar, está na sacerdotisa da Natureza. Dos deuses antigos, ela concebe os deuses. Ao lado do Satã do passado, pode-se ver despontar nela o Satã do futuro.

O único médico do povo, durante mil anos, foi a feiticeira. Os imperadores, os reis, os papas, os mais ricos barões tinham alguns médicos em Salerne; os mouros, os judeus, mais a massa de todo o Estado, e pode-se dizer do mundo, não consultavam senão a Saga ou Sage-femme. Se ela não conseguia curar, era então injuriada, chamam-na de feiticeira. Mas geralmente, por um respeito mesclado de temor, chamavam-na de "boa mulher" ou “bela mulher" (bella donna), o mesmo nome que se dava à fada.

Sucedeu-lhe o que aconteceu à sua planta favorita, a beladona, e aos outros venenos salutares que ela empre­gava e que foram o antídoto dos grandes males da Idade Média. O menino, a gente ignorante, maldisse essas sombrias flores sem conhecê-Ias. Essas flores espantavam com suas cores duvidosas. E ante elas ele recua, se afasta. São, não obstante, as consoladoras (solenáceas), que, dis­cretamente administradas, têm curado tantas vezes, têm adormecido tantos males.

Encontrareis as feiticeiras nos lugares mais sinistros, isolados, mal afamados, nos casebres, nas ruínas. Todavia, esta é uma semelhança que têm com aquela que as espe­rava. Onde poderia ela ter vivido senão nos landes sel­vagens, a infortunada a quem perseguiamos de tal modo, a maldita, a proscrita, a envenenadora que curava, salvava; a noiva do Diabo e do Mal encarnado, que tem feito tanto bem, nas palavras de um grande médico do Renascimento. Quando Paracelso, em Bâle, em 1527, queimou toda a medicina, declarou que não sabia nada senão o que havia aprendido com as feiticeiras.

Isto valia uma recompensa. Elas a tinham. Pagavam-­nas com torturas, com fogueiras. Criavam-se suplícios para elas; idealizavam muitas dores. Eram julgadas em massa e condenadas apenas por uma palavra. Jamais houve prodigalidade de vidas humanas igual a esta. Sem falar da Espanha, terra clássica das fogueiras, onde o mouro e o judeu jamais andavam sem a feiticeira, quei­maram-se sete mil em Treves; não sei quanto em Tol­louse; em Gênova, quinhentas em três meses (1513); oitocentas em Wurtzburg, em apenas um dia; mil e quinhentas em Bamberg. Fernando II, o Devoto, cruel imperador da Guerra dos Trinta Anos, foi obrigado a vigiar os bons bispos. Eles teriam, ao que parece, a boa intenção de purificar pelo fogo todos os seus bons vas­salos. Encontro na, lista de Wurtzburg um feiticeiro de onze anos, que estava na escola e uma feiticeira de quinze; em Bayonne, duas de dezessete, condenavelmente bonitas.

Notai que, em certas épocas, o ódio mata quem ele quer. A inveja das mulheres, as concupiscências dos ho­mens apoderam-se de uma arma tão cômoda. Fulana é rica? ... Feiticeira. Beltrana é formosa?.. Feiticeira.

Nós veremos Murgui, uma pequena mendiga, que, com esta pedra terrível, marcou com sua morte a fronte de uma grande dama, muito bela, a castelã de Lancinena.

As acusadas, sempre que podem, antecipam a tortura e se matam. Remy, o excelente juiz de Lorraine, que queimou oitocentas feiticeiras, leva vantagem neste terror. "Minha justiça é tão boa", diz ele, "que dezesseis, que foram julgadas outro dia, não quiseram esperar -e se en­forcaram antes."

No longo caminho da minha história, nos trinta anos que já tenho consagrado a ela, esta horrivel literatura de feitiçaria me tem passado, repassado frequentemente pelas mãos. Tenho examinado, em primeiro lugar, os manuais de inquisição, a estupidez dos dominicanos (Fouets, Marteaus, Fourmilières, Fustigations, Lanternes, etc., são os títulos de seus livros). Depois, tenho lido os parlamen­tares, os juízes leigos que sucedem àqueles monges, os desprezam e, no entanto, não são menos idiotas. Sobre isto, digo alguma coisa em outro local. Aqui, uma só observação, a de que de 1300 a 1600, e ainda depois, a justiça é a mesma. Salvo um pequeno entreato no Parlamento de Paris, é sempre e por toda parte a mesma fe­rocidade de bobagens. Os talentos não servem aqui para nada. O inteligente De Lancre, magistrado bordelês do reinado de Henrique IV, grande avançado em política, rebaixa-se ao nível de um Nider, de um Sprenger, dos monges imbecis do século XV, ao começar a tratar de feitiçaria.

A gente é apanhada de espanto ao ver os tempos tão diversos, os homens de cultura diferente não poderem avançar mais um passo. Depois, compreende-se muito bem por que uns e outros foram detidos, diremos mais, cegados, irremediavelmente embriagados e bestificados pelo veneno de seu princípio. Este princípio é o dogma da injustiça fundamental: "Todos perdidos por um só, não só punidos, mas dignos de sê-Io, depravados e pervertidos de antemão, mortos perante Deus antes mesmo de nascer. O menino que mama é já um condenado".

Quem disse isto? Todos, até Bossuet. Um médico importante de Roma, Spina, Maitre du Sacre Palais, formula cristalinamente esta pergunta: "Por que Deus permite a morte dos inocentes? Ele o faz justamente. Porque se eles não morrem por causa dos pecados que cometem, morrem todos os dias pelo pecado original". (De strigibus. pág. 9.)

Desta enormidade derivam duas coisas, em justiça e em lógica. O juiz está sempre seguro de seu acerto; o acusado é sempre culpado, e, se ele se defende. é mais culpado ainda. A justiça não tem que suar muito, quebrar a cabeça para distinguir o verdadeiro do falso. Em tudo, parte-se de uma opinião preconcebida. O lógico, o esco­lástico não tem que fazer a análise da alma humana, de dar conta das nuanças por que ela passa, de sua comple­xidade, de suas lutas interiores e de seus conflitos. Ele não tem necessidade, como nós, de explicar como essa alma, gradualmente, pôde tornar-se viciosa. Oh! como ele riria se pudesse compreender as sutilezas, as investigações deste estudo. E com que graça abanaria as soberbas orelhas, com as quais a sua cabeça é adornada.

Quando se trata sobretudo do pacto diabólico, pacto pavoroso, onde pela pequena vantagem de um dia 'Se vende a alma às torturas eternas, nós procuraríamos buscar o caminho maldito, a espantosa escala de infelicidades e crimes que a terão feito descer até este ponto. Nosso homem sabe bem a que se ater. Para ele, a alma e o diabo nasceram um para o outro, se bem que, na primeira ten­tativa, por um capricho, por um desejo .vago, por uma idéia fantástica, lança-se de um golpe a alma a esta hor­rível extremidade.

Não vejo tampouco que os nossos modernos tenham indagado muito da cronologia moral da feitiçaria. Eles se apegam nas relações da Idade Média com a Antiguidade. Relações reais, mas falhas, e de pouca importância. Nem a velha mágica, nem a vidente celta ou germânica são ainda a verdadeira feiticeira. As inocentes Sabasies (de Bacchus Sabasius), do pequeno sabá rural que perdurou na Idade Média, não são de modo algum a Missa Negra do século XIV, o grande desafio solene a Jesus. Essas terríveis concepções não chegarão para a longa fileira da tradição. Elas brotarão do horror dos tempos.

De quando data a feiticeira? Respondo sem hesitar:"Dos tempos do desespero".

Do desespero profundo que fez o mundo da Igreja. E digo ainda sem hesitar: "A feiticeira é seu crime".

Não me detenho de forma alguma às suas melífluas explicações que fingem atenuar o horror. Fraca, ágil era a criatura, branda às tentações. Ela foi induzida ao mal pela concupiscência. Ah! na miséria, a fome desses tempos não é o que podia perturbar até o furor diabólico. Se a mulher amorosa, ciumenta e abandonada, se o menino expulso pela madrasta, se a mãe golpeada por seu filho (velhas personagens de lendas), se eles têm podido ser tentados, invocar o mau espírito, isso tudo nada tem a ver com a feiticeira. De que estas pobres criaturas chamem a Satã, não se conclui que ele as aceite. Eles estão longe ainda, bem longe de serem maduras para ele. Elas não têm o ódio de Deus.

Para compreender melhor todo isso, lede os registros execráveis que nos restam da Inquisição, não os extratos de LIorente, de Lamothe-Langon, etc., mas o que temos dos registros originais de Toulouse. Lede na sua vulgari­dade, na sua sombria secura, tão pavorosamente selvagem. Ao fim de quaisquer páginas, 'Sentimo-nos enregelados. Lm frio cruel nos toma. A morte, a morte, a morte, é isso que sentimos em cada linha. Encontramo-nos já em um ataúde ou em uma pequena choça de pedra dentro de um muro bolorento. Os mais felizes são aqueles que morrem. O horror é a vida no in-pace. É esta palavra que volta sem cessar, como um sino de abominação que toca­mos e retocamos, para desolar os mortos vivos.

Enquanto mecânica de destruição, de achatamento, cruel prensa para quebrar a alma. A cada volta do para­fuso, já quase sem respirar, ela salta da máquina e cai num mundo desconhecido..

À sua aparição, a feiticeira não tem pai, nem mãe, !tem filhos, nem esposo, nem família. É um monstro, um aerólito, vindo não se sabe de onde. Quem teria a ousadia, grande Deus, de aproximar-se dela?

Onde se encontra ela? Em lugares impossíveis, na floresta de espinhos, no lande, onde o espinho, o cardo emaranhado não permitem passagem. À noite, sob qual­quer dólmen. Se 'Se a encontra aí, ela está isolada pelo horror comum; ela tem à volta como que um círculo de fogo.

Quem a faz chorar então? É uma mulher ainda. Até mesmo esta vida terrível oprime e põe em tensão sua força de mulher, a eletricidade feminina. Ei-Ia dotada de duas faculdades:

O iluminismo da loucura lúcida, que, segundo seus graus, é poesia, segunda vista, penetração perfurante, a palavra ingênua e astuciosa, a faculdade sobretudo de crer-se em todas as suas mentiras. Dom ignorado do fei­ticeiro homem. Com ele nada teria começado.

Desta faculdade deriva uma outra, o sublime poder da concepção solitária, a partenogênese que os nossos fisió­logos reconhecem agora ilas fêmeas de numerosas espécies para a fecundidade dos corpos, e que não é menos segura para as concepções do espírito.

Sozinha, ela concebe e pare. O quê? Um ser igual a ela, tão semelhante a ela que não se pode distinguir.

Filho do ódio, concebido do amor. Pois que sem o amor não cremos em nada. A mãe, assustada com sua própria concepção, sente-se tão bem, se compraz de tal modo neste ídolo, que o coloca a todo instante sobre o altar, honra-o, imola-o, e se dá como vítima e viva hóstia. Ela mesma muitas vezes o dirá ao seu juiz: "Não temo mais que uma coisa: sofrer muito pouco por ele". (Lan­cre.).

Sabeis vós a primeira manifestação da criança? É uma espantosa gargalhada. Não há criatura mais alegre sobre sua livre campina, longe dos calabouços da Espanha e dos claustros de Toulouse. Seu in-pa-ce não é nada menos que o mundo inteiro. Ele vai, vem, passeia. Sua é a floresta sem limites. Seu o lande de longínquos hori­zontes. Sua a terra toda. A feiticeira o disse ternamente: "Meu Robin", do nome daquele valente proscrito, o alegre Robin Hood, que vive sob a verde folhagem. Gosta de chamá-Io também de Verdelet, Folibois, Vertbois. São os lugares favoritos do travesso. Apenas ouve um silvo e já começa a fazer as suas travessuras.

O que espanta é que do primeiro golpe a feiticeira criou verdadeiramente um ser. Ele tem todos os semblan­tes da realidade. Tem-se visto. ouvido esse ser. E qual­quer um pode descrevê-Io.

Olhai, ao contrário, a impotência da Igreja para en­gendrar. Como seus anjos são pálidos, diáfanos.

Mesmo nos demônios que tomou aos rabinos, sórdida legião de resmungões, ela procurou um realismo de terror, mas não encontrou. Estas figuras são grotescas, mais que terríveis; elas são flutuantes e cômicas.

Vede, agora, Satã: este sai do seio em chamas da feiticeira, vivo, armado e todo brandido.

Apesar do medo que sentíamos dele, deve-se confes­sar que, sem ele, morreríamos de monotonia. Dos flagelos Que ferem esses tempos, o aborrecimento é ainda o pior. . . Quando ensaiamos fazer falar as Três Pessoas ao mesmo tempo, como Milton teve essa ídéia, o aborreci­mento alcança o sublime. De uma a outra, é um sim eterno. Dos anjos aos santos, o mesmo sim. Aqueles, em suas lendas, muito gentis no começo, têm todos um ar de parentesco insípido, entre eles, e com Jesus. Todos primos. Deus nos guarda de viver em um país onde todo rosto humano, de semelhança desoladora, tenha aquela igual­dade adocicada do convento ou da sacristia.

Ao contrário, este alegre, o filho da feiticeira, sabe dar a réplica. Ele responde a Jesus. Eu estou seguro de que ele não se aborrece, acabrunhado como está da insipi­dez de seus santos.

Aqueles bem-amados, os filhos da casa, mexem- se pouco, contemplam, agradam. Eles esperam esperando, seguros de que eles terão sua parte de escolhidos. O pouco de atividade que têm se concentra no círculo apertado da imitação (esta palavra é toda a Idade Média). Ele, o bastardo maldito, cuja parte não é senão o castigo, não se cansa de esperar. E ele vai procurar, sem jamais descan­sar. Ele se agita, da terra ao céu. Ele é muito curioso, escava, penetra, sonda e mete o nariz em tudo. Da Consummatum est ele se ri, dizendo sempre: "Mais longe. Para a frente".

De resto, ele não está desgostoso. Toma todas as repulsas; o que o céu atira, ele recolhe. Por exemplo, a Igreja atirou a Natureza, como impura e suspeita. Satã a agarra e a adorna. Bem mais, ele a explora e a utiliza, faz brotar dela as artes, aceitando o título com que se quer desonrá-Io: Príncipe do Mundo.

Temos dito com imprudência: "Infelizes os que riem". Isso é dar a Satã a parte mais bela, o monopólio do riso, e proclamá-Io como um ser alegre, jovial, iliver­tido. Dizemos mais, necessário. Porque o riso é, uma função essencial de nossa natureza. Como levar a vida se não podemos rir, pelo menos entre nossas dores?

A Igreja, que não vê na vida mais que uma provação, se guarda de prolongá-Ia. Sua medicina é a resignação, a espera, a esperança da morte. Vasto campo para Satã. Eis a medicina, o curandeiro dos vivos; bem mais, o consola­dor, pois tem a bondade de nos mostrar os mortos, de evocar as sombras de nossos amados defuntos.

Outra coisa que a Igreja repele é a lógica, a livre razão, e outra coisa ainda que o outro avidamente agarra.

A Igreja havia construido a cal e a cimento um pe­queno in-pace, estreito, com a abóbada bem baixa, ilumi­nada apenas por uma fresta. A isto chamou Escola. Aqui se soltavam alguns tosquiados e se lhes dizia: "Estão livres". Todos ali viriam a ser aleijados. Trezentos, qua­trocentos anos confirmam a paralisia. E o ponto de Abailard é justamente o de Occam.

Esta coisa graciosa é que vai buscar ali a origem do Renascimento. Ele teve lugar, mas como? Pela empresa satânica dos que furaram a ahóbada, pelos esforços dos condenados que queriam ver o céu. Ele teve lugar tam­bém longe da escola e das letras; na escola silvestre, onde Satã ensinou à feiticeira e ao pastor.

Ensino arriscado, mas que, mesmo com seus riscos, exaltava o amor curioso, o desejo desenfreado de ver e saber. Lá começarão as más ciências: a farmácia com seus venenos, aexecrável anatomia. O pastor; espião das es­trelas, observando o céu, trouxe de lá suas receitas culpadas, seus ensaios sobre os animais. A feiticeira trouxe do cemitério vizinho um corpo roubado, e pela primeira vez, ao risco da fogueira, pôde-se contemplar esse milagre de Dues, “que se escondia parvamente, em lugar de com­preendê-Io" (como diz bem M. Serres).

O único médico admitido ali por Satã, Paracelso, viu uma terceira personagem que às vezes se deslizava na assembléia sinistra e que representava a cirurgia. Era o cirurgião daqueles tempos de bondade, o carrasco, o ho­mem de mão ousada, que manejava oportunamente o ferro,  que quebrava os ossos e sabia juntar novamente, que matava e às vezes salvava.

A universidade criminal da feiticeira, do pastor, do carrasco, em seus ensaios que foram um sacrilégio, deu em alento a uma outra, forçou o seu concorrente a estudar, porque todos queriam viver. Tudo havia sido da feiticeira; e dava-se sempre as costas ao médico. A Igreja teve que sofrer e tolerar esses crimes e confessar que há bons venenos (Grillandus). Forçada e constrangida, ela permite as dissecações públicas. Em 1306, o italiano Mon­dino abre e disseca uma mulher; e outra em 1315. Reve­lação sagrada, descobrimento de um mundo (maior que o de Cristóvão Colombo). Os idiotas se estremecem, uivam. E os sábios prostram-se de joelhos.

Com tais vitórias, Satã está muito seguro de viver. E jamais a Igreja, por si só, poderia tê-Io destruído. As fogueiras não faziam nada, senão certa política.

Dividiu-se habilmente o reino de Satã: contra sua filha, sua esposa, a feiticeira, se armou seu filho, a medicina.

A Igreja, que odiava profundamente o médico, não lhe deixou fundar o monopólio de sua arte com a extin­ção da feiticeira, declarando no século XIV que se a mulher ousa curar sem haver estudado, ela é realmente t:ma feiticeira e deve morrer.

Mas como estudaria ela publicamente? Imaginai a cena grotesca, horrível, que teria lugar se a pobre selvagem se arriscasse a entrar para a Escola. Que festa, que gaia­tice. Aos fogos de Santa Joana, queimavam-se os gatos encadeados. Que espetáculo divertido não teria sido a feiticeira substituindo o gato.

Ver-se-á mais adiante a decadência de Satã. Lamen­tável narrativa. Nós o veremos pacífico, transformado em um bom velho. Nós o roubamos, o pisamos, até o ponto em que das duas máscaras que tinha no sabá, a mais suja é tomada por Tartufo.

Seu espírito está em toda parte. Mas ele mesmo, sua pessoa, perdeu-o todo ao perder a feiticeira. Os feiticeiros não foram senão maçadores.

Agora que se precipitou de tal modo o seu fim, sabe-se bem o que aconteceu? Não seria ele um ator neces­sário, uma peça indispensável da grande máquina reli­giosa, hoje um pouco desarranjada? Todo organismo que funciona bem é duplo, tem dois lados. A vida não se realiza de outro modo. É um certo balanceamento de duas forças, opostas, simétricas, mas diferentes; a inferior faz contrapeso, responde à outra. A superior se impacienta e quer suprimi-Ia. Sem razão.

Quando Colbert (1672) destitui Satã sem muita con­sideração, proibindo aos juízes de receber os processos de feitiçaria, o tenaz Parlamento normando, na sua boa lógica normanda, mostra o alcance perigoso de uma tal decisão. O Diabo não é menos que um dogma que de­pende de todos os demais. Tocar o eterno vencido não étocar o eterno vencedor? Duvidar dos atos do primeiro é a mesma coisa que duvidar dos atos do segundo, dos milagres que fez precisamente para combater o Diabo. As colunas do céu têm seu pé no abismo. O insensato que move esta base infernal pode gretar o Paraíso.

Colbert porém não escuta. Tem tanto que fazer... Mas o Diabo talvez ouviu, e isto o consola muito. Nos pequenos trabalhos em que agora ganha a vida (o espiri­tismo ou mesas giratórias) ele se resigna, acreditando que pelo menos ele não morre só.

A passagem que começa em “Olhai, ai contrário, a impotência da Igreja...” não constava da edição orignal. (N. do A.)

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